Romanos 2

 

Romanos 2

 

A Responsabilidade do Privilégio


Nesta passagem Paulo se dirige diretamente aos judeus. A conexão do pensamento é esta. Nas passagens anteriores Paulo pintou um quadro horrendo e terrível do mundo pagão, um mundo que estava sob a condenação de Deus. Os judeus estavam totalmente de acordo com cada uma das palavras desta condenação. Eles também criam que Deus eliminaria os pagãos por causa de seus pecados. Mas nem por um momento imaginavam que eles estavam sob uma condenação semelhante.

Eles pensavam ocupar uma posição privilegiada perante os olhos de Deus. Deus podia ser o juiz dos pagãos, mas era o protetor especial dos judeus. Aqui Paulo aponta enfaticamente aos judeus que eles são tão pecadores quanto os gentios, assim quando o judeu condena o gentio está condenando a si mesmo; o fato de ser racialmente judeu não o salvará certamente do juízo; ele será julgado não por sua herança racial, mas sim pelo tipo de vida que ele próprio tenha vivido.

 

Os judeus sempre se consideraram a si mesmos em uma posição privilegiada diante de Deus. "Deus", diziam, "dentre todas as nações da Terra ama somente a Israel." "Deus julgará os gentios com uma medida e os judeus com outra." "Todos os israelitas terão participação no reino por vir." "Abraão está sentado junto às portas do inferno e não permitirá que nenhum mau judeu as atravesse."

Justino Mártir, em Diálogo com Tritón, ao discutir com o judeu a respeito da posição dos judeus, este diz: "Aqueles que são descendentes de Abraão segundo a carne participarão do Reino eterno de qualquer maneira, embora tenham sido pecadores, infiéis e desobedientes a Deus."

 

O autor do Livro de Sabedoria, comparando a atitude de Deus para com os judeus e para com os gentios, diz: “Pois aos teus provaste como pai que repreende, mas a eles castigaste como rei severo que condena” (Sabedoria 11:10, BJ). "Assim, enquanto nos corriges, sobre nossos inimigos descarregas a milhares os açoites" (Sabedoria 12:22). Os judeus criam que todos estavam destinados ao juízo, exceto eles próprios. Não era que alguma bondade especial os fizesse imunes à ira de Deus, senão pelo fato de ser simplesmente judeus.

 

Para enfrentar esta situação Paulo recorda quatro coisas aos judeus.

(1) Diz-lhes simplesmente que eles estão traficando com a misericórdia de Deus. No versículo 4 utiliza três grandes palavras: “Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência, e longanimidade?”" Vejamos estes três grandes termos.

(a) Benignidade (crestotes). A respeito desta palavra, diz Trench: "É uma bela palavra como para expressar uma bela idéia." Em grego há duas expressões para bom; uma agathos e a outra crestos. A diferença entre as duas é esta: a bondade do homem que é agathos bem pode resultar em recriminação, disciplina e castigo; mas a bondade do homem que é crestos é sempre essencialmente mansa. Jesus foi agathos quando purificou o templo e expulsou os cambistas e os vendedores de pombas na exaltação de sua ira; foi crestos quando tratou com amante gentileza à mulher que ungiu seus pés ou à mulher tomada em adultério. Assim, Paulo diz, em efeito: "Vocês, judeus, estão simplesmente tentando tirar vantagens da benignidade de Deus."

(b) Paciência (anoque). Anoque é o termo grego utilizado para trégua. Significa, sim, uma cessação da inimizade e da hostilidade, mas uma cessação que tem um limite. Por certo, é algo que dá uma oportunidade, mas uma oportunidade que deve ser aproveitada em um momento dado ou se perde. Com efeito, Paulo está dizendo aos judeus: "Vocês pensam que estão seguros porque o juízo de Deus ainda não caiu sobre vocês. Mas Deus não lhes dá carta branca para pecar, mas sim lhes está dando uma oportunidade para se arrependerem e emendarem seus caminhos." O homem não pode pecar sempre impunemente.

(c) Longanimidade (makrothumia). Makrothumia em grego é um termo que expressa caracteristicamente paciência com as pessoas. Crisóstomo a define como a característica do homem que tem em si mesmo o poder de vingar-se, mas que deliberadamente não o usa. É o espírito daquele que poderia destruir o homem que o fere ou insulta, mas que por misericordiosa paciência sujeita suas mãos.

Assim, pois, Paulo está, praticamente, dizendo aos judeus: "Não pensem que o fato de Deus não castigá-los seja um sinal de que não os pode castigar. O fato de que o pecado não seja seguido imediatamente pelo castigo de Deus não é demonstração de sua impotência. Vocês devem suas vidas à longanimidade de Deus."

Um grande comentarista disse que freqüentemente todos têm o que ele chama "uma vaga e indefinida esperança de impunidade", um certo sentimento de que "isso não pode ocorrer comigo". Os judeus foram além disto; "abertamente pretendiam estar excetuados do juízo de Deus". Os judeus traficavam com a misericórdia de Deus, e há muitos que até hoje procuram fazer o mesmo.

 

 

(2) Os judeus consideravam a misericórdia de Deus como um convite para pecar mas do que um incentivo para o arrependimento.

Foi Heine quem fez uma famosa declaração cínica. Ele obviamente não se preocupava com o mundo vindouro. Foi-lhe perguntado por que tinha tanta confiança e sua resposta foi: "Deus perdoará." Foi-lhe perguntado por que estava tão seguro disso e sua réplica foi: "C'est sont métier", "É o seu trabalho".

 

Pensemo-lo em termos humanos. Há duas atitudes quanto ao perdão humano. Suponhamos que um jovem faz algo que envergonha, entristece e quebranta a seus pais, e suponhamos que por amor é imerecidamente perdoado, e nunca reprova sua ação; ele pode fazer uma de duas coisas: pode ir e fazer o mesmo outra vez, especulando com o fato de que será perdoado novamente; ou pode ser movido a uma tão imensa gratidão pelo perdão imerecido que recebeu, que dedique toda sua vida a buscar ser merecedor dele.

Uma das coisas mais indecentes do mundo é usar a misericórdia e o perdão do amor como desculpa para continuar pecando. Isto é o que faziam os judeus. Isto é o que muita gente ainda faz. A misericórdia de Deus, o amor de Deus, não pretende nos levar a sentir que podemos pecar e obter vantagem com isso; pretende fazer estalar de amor nossos corações de maneira que procuremos não voltar mais a pecar.

 

(3) Paulo insiste em que para Deus não há favoritismos. Insiste em que no plano de Deus não há nenhuma cláusula de nação mais favorecida. Pode haver nações que são escolhidas para realizar uma tarefa especial e com uma responsabilidade especial, mas não há nações escolhidas para receber privilégios e considerações especiais.

Pode ser certo, como disse Milton: "Quando Deus tem uma grande tarefa a fazer Ele a encomenda a seus ingleses", mas se trata de uma grande tarefa, não de um grande privilégio. A totalidade da religião judia estava baseada na convicção de que os judeus tinham uma posição especial de privilégio e favor aos olhos de Deus.

Pode nos parecer que hoje deixamos muito atrás esta atitude. Mas é assim? Não há hoje tal coisa como a barreira da cor? Não há tal coisa como o que Kipling chamava um sentimento consciente de superioridade ou raças inferiores sem lei?" Isto não significa que todas as nações são iguais em talento, em gênio, em habilidade. Mas sim significa que aquelas nações que avançaram mais que outras estão proibidas de olhar a estas com desprezo, e têm a responsabilidade de ajudar às outras a elevar-se até seu próprio nível.

 

(4) De todas as passagens de Paulo esta é aquela que mais merece um cuidadoso estudo, com o fim de chegar a uma correta noção dos termos paulinos. Argúi-se freqüentemente que a posição de Paulo era que tudo o que importa é a fé. A religião que põe ênfase na importância das obras é freqüentemente posta de lado com menosprezo ao considerá-la totalmente fora de tom com o Novo Testamento. Nada poderia estar mais longe da verdade. "Deus", diz Paulo, "pagará a cada um de acordo com as suas obras." Para Paulo, uma fé que não se expressasse em obras seria uma simulação e paródia da fé. De fato não seria uma fé. Paulo poderia haver dito que a única maneira em que alguém pode ver a fé de um homem é por meio de suas obras. Uma das mais perigosas de todas as tendências religiosas é falar como se fé e obras fossem coisas inteiramente diferentes e separadas. Não pode haver tal coisa como uma fé que não se expresse em obras, e não pode haver tal coisa como obras que não sejam produto da fé. As obras e a fé estão inextricavelmente vinculadas entre si. Como poderia Deus, em última análise, julgar o homem a não ser por suas obras? Não podemos dizer comodamente: "Eu tenho fé", e deixar a coisa assim. Nossa fé deve expressar-se em obras, porque é por nossas obras que somos aceitos ou rechaçados.

 

 

A LEI NATURAL

Romanos 2:12-16

Para entender o sentido da passagem o versículo 16 deveria seguir ao versículo 13, e os versículos 14 e 15 representam um longo parêntese. Deve-se lembrar que Paulo não escreveu esta carta sentado perante um escritório e pensando cuidadosamente cada palavra e cada construção. Devemos imaginá-lo andando de um lado a outro da habitação ditando-a a seu secretário, Tércio (Romanos 16:22), quem se esforçava para escrevê-lo. Isto explica o longo parêntese, mas é fácil obter o significado correto se tiramos o parêntese e passamos diretamente do verso 13 ao 16, e adicionamos os versículos 14 e 15 como uma explicação posterior. Nesta passagem Paulo volta aos gentios.

Ocupou-se dos judeus e de suas pretensões de privilégios e favores especiais. Mas os judeus tinham uma vantagem, e esta era a Lei.

Bem poderia ser que um gentio tomasse a desforra dizendo: "É correto unicamente que Deus condenasse os judeus que têm a Lei e deveriam conhecê-la muito bem; mas nós, os gentios, com segurança nos livraremos totalmente do juízo porque não tivemos oportunidade de conhecer a Lei e não conhecemos nada melhor." Em resposta a esta pretensão, Paulo assenta dois grandes princípios.

 

(1) O homem será julgado pelo que teve a oportunidade de conhecer. Se conheceu a Lei, será julgado como quem conheceu a Lei. Se não conheceu a Lei, será julgado como quem não conheceu a Lei.

Deus é justo. E aqui está a resposta para aqueles que perguntam o que acontece com as pessoas que viveram no mundo antes da vinda de Jesus e não tiveram oportunidade de ouvir a mensagem cristã. A resposta cristã é que o homem será julgado por sua fidelidade ao mais elevado que foi possível conhecer. Se tiver sido fiel ao mais elevado que conheceu, Deus não quer nem pode lhe pedir nada mais.

 

(2) Mas Paulo continua dizendo que até aqueles que não conheciam a Lei escrita tinham uma lei natural em seus corações. Poderíamos chamá-la conhecimento instintivo do bem e do mal. Os estóicos diziam que no universo operam certas leis que o homem quebranta para seu próprio risco — as leis da saúde, a lei moral, as leis que governam a vida e a subsistência. Os estóicos chamavam a estas leis fysis, que significa natureza, e insistiam com os homens a viver kata fysin, de acordo com a natureza. O argumento de Paulo é que na própria natureza do homem está implantado um conhecimento inato, inerente e instintivo do que deve fazer. Os gregos teriam estado de acordo com isto.

Aristóteles disse: "Os homens ilustrados e de mente livre se comportarão como aqueles que são lei para si mesmos".

 

Plutarco pergunta: "Quem governará o governador?" E responde: "A lei, a rainha de todos os mortais e imortais, como a chamou Píndaro, que não está escrita em rolos de papiro ou tábuas de madeira, mas em sua própria razão dentro da alma, que mora perpetuamente com ele e o protege e nunca deixa sua alma privada de orientação."

Paulo via o mundo dividido em duas classes de pessoas. Via os judeus com sua Lei dada diretamente por Deus e posta por escrito para que todos pudessem lê-la. Via as outras nações, sem essa Lei escrita, mas com um conhecimento instintivo do bem e o mal implantado por Deus em seus corações. Nenhuma podia pretender ser excetuada do juízo. Os judeus não podiam pretender uma isenção por ter um lugar especial no plano de Deus. Os gentios não podiam pretender uma isenção por nunca ter recebido a Lei escrita. Os judeus seriam julgados como aqueles que tinham conhecido a Lei; os gentios seriam julgados como aqueles que, embora não tinham uma lei escrita, tinham entretanto uma consciência dada por Deus. Deus julgará ao homem de acordo ao que conhece e tem oportunidade de conhecer.

 

 

O VERDADEIRO JUDEU

 

Romanos 2:17-29

Para um judeu, uma passagem como esta deve ter caído como uma experiência frustrante. O judeu estava seguro de viver em uma relação especial com Deus, e de que Deus o considerava com um favor especial, unicamente por sua descendência nacional de Abraão e porque levava o sinal da circuncisão em seu corpo. Mas aqui Paulo introduz uma idéia à qual voltará várias vezes. Ser judeu, insiste, não é de modo algum um assunto racial; ser judeu não tem nada que ver com a circuncisão. Ser judeu é uma questão de conduta. Sendo assim, há muitos chamados judeus, descendentes puros de Abraão, que levam a marca da circuncisão em seus corpos, que não são absolutamente judeus. Por outro lado, há muitos gentios que jamais ouviram falar de Abraão e que nunca imaginaram ser circuncidados, que são judeus no verdadeiro sentido do termo.

Para um judeu isto terá soado como a mais desatinada heresia. Com um só golpe Paulo estava abolindo a própria base do pensamento judeu. Estava excluindo do verdadeiro perfil judeu a muitos e muitos judeus, e introduzindo uma nova concepção que fazia do perfil judeu algo que todas as nações podiam obter, algo tão amplo como a própria Terra. Uma declaração como esta deixaria os judeus furiosos e estupefatos.

 

O último versículo desta passagem contém um trocadilho totalmente intraduzível. “O louvor de tal judeu não vem dos homens, mas de Deus” (TB). O termo grego para louvor é epainos. Ao nos voltarmos ao Antigo Testamento (Gênesis 29:35; 49:8) encontramos que o significado original e tradicional do termo Judá é louvor (epainos).

 

De modo que esta oração significa duas coisas:

(a) Significa que o louvor de tal homem não vem dos homens, mas sim de Deus.

(b) Significa que o perfil judeu de tal homem não vem dos homens, mas sim de Deus.

O significado total da passagem é que as promessas de Deus não são para pessoas de uma determinada raça e pessoas que levam certo sinal em seus corpos.

As promessas de Deus são para pessoas que vivem certo tipo de vida não importa a raça a que pertençam. Ser um verdadeiro judeu não é uma questão de ascendência, é uma questão de caráter; e freqüentemente pode ocorrer que aquele que não é um judeu de raça é melhor judeu do que quem o é.

 

Nesta passagem Paulo diz que há judeus cuja conduta faz que o nome de Deus seja blasfemado entre os gentios. É um simples fato histórico que os judeus foram, e freqüentemente são ainda, as pessoas mais odiadas e mais impopulares do mundo.

Vejamos exatamente como os gentios consideravam os judeus nos tempos de Novo Testamento.

Os gentios consideravam o judaísmo como uma "Bárbara superstição". Consideravam os judeus como "a mais desagradável das raças", e como "uma desprezível companhia de escravos". As origens da religião judia eram tergiversados com maliciosa ignorância. Dizia-se que os judeus foram originalmente uma companhia de leprosos que tinham sido enviados pelo rei do Egito para trabalhar nas pedreiras de areia; que Moisés reuniu a essa banda de escravos leprosos e os levou através do deserto até a Palestina. Dizia-se que adoravam uma cabeça de asno, porque no deserto uma récua de asnos selvagens os tinha guiado até a água quando estavam morrendo de sede. Dizia-se que se abstinham da carne de porco porque o porco estava especialmente propenso a uma enfermidade da pele chamada sarna, e esta era a enfermidade da pele que os judeus teriam sofrido no Egito.

 

Alguns dos costumes judeus eram objeto de zombaria entre os gentios. Sua abstinência de carne de porco era motivo de muitos escárnios entre os gentios. Plutarco pensava que a razão para tal abstinência bem podia ser que os judeus adoravam o porco como a um Deus. Juvenal declara que a clemência judia concedia ao porco uma longa e boa vida, e que a carne de porco era para eles mais valiosa que a carne do homem. O costume de observar no sábado era visto como pura vadiagem e indolência.

 

Certas coisas das quais desfrutam os judeus enfureciam os gentios. Dava-se o estranho caso de que, impopulares como eram, os judeus tinham recebido apesar disso extraordinários privilégios do governo romano.

 

(a) Era-lhes permitido remeter todos os anos a importância dos impostos do templo a Jerusalém. Estas transferências dos impostos do templo a Jerusalém chegaram a ser tão sérias que, na Ásia, ao redor do ano 60 A. C., proibiu-se a saída de circulante e, segundo os historiadores, foram embargadas não menos de vinte toneladas do ouro de contrabando dos envios feitos pelos judeus a Jerusalém.

 

(b) Era-lhes permitido, ao menos até certo ponto, ter seus próprios tribunais e viver de acordo com suas próprias leis.

Existe um decreto dado na Ásia por um governador chamado Lúcio Antônio, ao redor do ano 50 A. C., no qual o governador escreveu:

"Nossos cidadãos judeus vieram a mim e me informaram que têm suas próprias assembléias privadas, realizadas de acordo com suas leis ancestrais, e seu próprio lugar privado, onde eles acertam seus próprios assuntos e atendem os pleitos entre uns e outros. Quando me perguntaram se poderiam continuar com tal costume, eu sentenciei que lhes permitiria manter tal privilégio."

Os gentios detestavam o espetáculo de uma raça que vivia como uma sorte de nação separada e especialmente privilegiada.

 

(c) O governo romano respeitava a observância judia do sábado. Estava estabelecido que um judeu não podia ser chamado a dar testemunho em um juízo no sábado. Estava estabelecido que se fosse distribuída uma dádiva ou favor especial ao povo, e se esta distribuição era feita no sábado, os judeus podiam reclamar seu parte para o dia seguinte. E — o que era um especial motivo de rancor para os gentios — os judeus gozavam de astreteia, quer dizer que estavam excetuados da conscrição para servir no exército romano. Esta isenção estava diretamente relacionada com o fato de que a estrita observância judia do sábado tornava obviamente impossível o cumprimento dos deveres militares nesse dia. O resultado foi a exceção total, e é fácil imaginar com quanto ressentimento o resto do mundo terá olhado esta exceção do que para outros era uma carga onerosa.

 

Mas havia duas coisas das quais se acusava especialmente os judeus.

(a) Os acusava de ateísmo (atheotes). Dava-se o caso de que o mundo antigo tinha grandes dificuldades para conceber qualquer religião sem imagens visíveis de culto. Plínio os chamou "raça que se distingue por seu desprezo a todas as deidades". Tácito disse: "Os judeus concebem sua deidade como uma, só pela mente... daqui que não tenham erigido imagens em suas cidades e nem mesmo em seus templos. Não se rende esta reverencia aos reis, nem esta honra aos césares." Juvenal afirmou: "Eles não veneram mais que às nuvens e à deidade do céu." Mas na verdade o que realmente movia a desgosto aos gentios, não era tanto o culto sem imagens dos judeus como o frio desprezo em que os judeus tinham a todas as outras religiões. Ninguém cuja principal atitude rumo ao semelhante seja o desprezo, pode jamais ser missionário. Este desprezo a outros era uma das coisas em que Paulo estava pensando quando disse que os judeus faziam que fora blasfemado o nome de Deus.

 

(b) Eram acusados de ódio a seus semelhantes (misanthropia) e total insociabilidade (amixia).

Tácito disse a respeito deles: "Entre eles mesmos sua honestidade é inflexível, sua compaixão pronta a agir, mas para com as demais pessoas mostram o ódio do antagonismo."

Em Alexandria corria a história de que os judeus tinham jurado não mostrar nunca amabilidade para com um gentio, e que inclusive cada ano ofereciam um grego em sacrifício a seu Deus.

Tácito disse que a primeira coisa que um gentio convertido ao judaísmo era ensinado a fazer era "desprezar os deuses, repudiar sua nacionalidade e menosprezar os pais, filhos e irmãos".

Juvenal afirmou que se fosse perguntado a um judeu o caminho para um determinado lugar, recusava dar qualquer informação exceto a outro judeu, e que se alguém buscava uma fonte para beber, eles não o guiavam a menos que fosse circuncidado.

Aqui temos a mesma coisa outra vez. A atitude básica do judeu para com outros homens era o desprezo, e o desprezo sempre obtém o ódio como resposta.

Era muito certo que os judeus faziam com que o nome de Deus fosse blasfemado porque se encerravam em uma pequena comunidade rígida, da qual todos os outros estavam excluídos, e porque mostravam aos gentios uma atitude de desprezo por seu culto e uma falta completa de caridade para com suas necessidades. A verdadeira religião é questão de corações abertos e portas abertas; o judaísmo era uma religião de corações fechados e portas fechadas.


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