O Sacrifício de Isaque

 

O Sacrifício de Isaque 

(Gn 22.1-19)

Os críticos atribuem o relato à fonte. Quanto à teoria das fontes múltiplas do Pentateuco. Esta narrativa foi contada com graça excepcional, sendo um dos mais belos e comoventes episódios do Antigo Testamento. Ao mesmo tempo, tem servido de consternação para muitos intérpretes, por causa de seu sacrifício humano, que, embora não se tivesse concretizado, alegadamente foi ordenado pelo próprio Deus (vs. 2). Intérpretes como Orígenes pensavam tratar-se de uma alegoria (o que também pensavam sobre outras passagens difíceis), extraindo daí lições morais e espirituais, mas negando, peremptória e absolutamente, que Deus tivesse ordenado (como fato histórico) um sacrifício humano.

Há aqui grande drama humano: O amado filho prometido, Isaque, que tanto demorara a chegar, e que vinha sendo aguardado fazia tanto tempo, agora, de súbito, precisava ser sacrificado, e pelo seu próprio pai. Os registros mostram que sacrifícios humanos eram coisa comum em Ur e cercanias nos dias de Abraão, e que, sem dúvida, esse teria sido um fator do pano de fundo histórico do relato. Alguns eruditos consideram o episódio uma lenda que foi adicionada a Gênesis a fim de demonstrar a grande dedicação de Abraão a Yahweh, não Lhe negando nem mesmo a vida de seu filho, Isaque. A lição moral perene do relato é que não pode haver limite à dedicação espiritual e à obediência do homem, que deve incluir até o sacrifício. Outros estudiosos crêem na autenticidade histórica do relato, mas dizem que Abraão, em sua dedicação total, pensou que Yahweh tinha ordenado o sacrifício, sem perceber que o impulso vinha dele mesmo, e não de Deus. Por outra parte, não podemos perder de vista o fato de que o autor de Gênesis compreendia que a questão tivera origem na ordem divina. E assim vai rolando a controvérsia. Mas esta não nos deveria cegar para as grandes lições morais e espirituais da narrativa. Ver no fim do vs. 14 um sumário de idéias sobre o problema do sacrifício humano, no que tange à história de Abraão.

 

Depois dessas cousas.

Ou seja, após os incidentes em Berseba, onde Abraão erguera um centro de adoração (santuário) a Yahweh, El Olam. Ver 21.27 ss.

 

Pôs Deus Abraão à prova.

Sem dúvida, foi o mais severo teste a que Abraão foi submetido (em toda a sua vida). Ele havia recebido Isaque da parte de Deus, median te uma intervenção miraculosa, e após muitos anos de espera. Agora devia dá-lo de volta a Yahweh. Dizemos de forma negligente: “Deus dá e Deus tira”. Mas chegado o tempo de Deus tirar-nos algo, nosso coração desmaia. E quando perdemos um filho querido, isso é quase demais para suportar. Mas se essa perda chegar a ser causada pelo pai, então a severidade da prova ultrapassa toda compreensão humana.

 

Ismael tinha sido mandado embora (Gên. 21.12,13).

E isso fora difícil para Abraão. Mas agora fora-lhe pedido algo pior: a morte de um filho querido. Uma coisa é falarem confiar em Deus e obedecer a Ele. Mas é outra coisa atenderao Senhor na hora da prova e da tristeza.

Intermináveis sermões têm sido pregados sobre como Abraão tinha estatura espiritual suficiente para ser aprovado no teste. Somente um homem como Abraão poderia ter passado em um teste dessa natureza.

Quatro grandes crises da peregrinação espiritual de Abraão:

1. Deixar seu país e sua gente (Gên. 12).

2. Separar-se de Ló e as provas que ocorreram por causa do envolvimento de Ló com o mundo (Gên. 13.1-18).

3. O teste e a separação acerca de Ismael (Gên. 21.9 ss.).

4. O sacrifício de Isaque, o mais severo dos quatro testes (Gên. 22). Cada um desses testes envolveu uma rendição do que lhe era querido e grande dor de coração. Mas tudo redundou em vitória final.

5. A fé que opera através de suas obras, e é ilustrada por elas. Tiago utiliza-se deste trecho nessa demonstração, em Tia. 2.21-23.

 

Deus. Elohim, o Eterno.

Nenhum teste pode ser visto isoladamente. Existe um plano divino e uma dimensão eterna de todas as coisas. Confiamos nesse plano. Ver no Dicionário o verbete Elohim.

 

A Idade de Isaque.

Não há como determinar sua idade na ocasião. Josefo dizia que ele tinha vinte e cinco anos; mas outros falam em cinco anos, e outros em treze. O Targum de Jonathan diz trinta e seis.

 

As Dez Tentações.

Os intérpretes judeus distinguiam dez testes especiais de Abraão, observando que esse foi o último e mais severo de todos.

 

22.2

Teu único filho. Abraão já tinha Ismael mas Isaque era o único filho por meio de quem o pacto seria realizado. Ver sobre o Pacto Abraàmico, em Gên. 15.18. Ademais, Isaque era o único filho que Abraão tinha em sua companhia. Ismael já estava vivendo no deserto da Arábia.

 

Oferece-o.

Ou seja, Isaque. Aqui Deus aparece a ordenar um sacrifício humano. Devemos lembrar que isso foi proibido terminantemente na legislação mosaica, por ser tido como a pior das abominações pagãs. Ver Lev. 18.21; 20.2,3. A pena de morte pairava sobre qualquer um que ousasse tão absurdo ato em Israel. Mas aqui Abraão, o pai de Israel, aparece prestes a cometer esse ato, e por ordem do próprio Deus. “Aqui há uma verdade que requer nossa reverência; mas há vestígios de ideias antigas que as consciências mais bem formadas deixaram há muito para trás. É como se em algum campo verdejante e frutífero, pronto para a colheita, alguém achasse ossos fossilizados de estranhas criaturas que antes caminhavam à face da terra.

Temos aqui a história de Abraão e Isaque. E nela está embebido o fato de que antigamente não só os homens praticavam sacrifícios humanos, mas também faziam isso como se fosse uma ordem divina, em muitos casos dentro dessa cultura a ideia enxertada de resultados negativos vividos por uma pessoa, tendo a situação resolvida entregando o que você mais ama. Abraão vivendo situações diversas de provações conclui: ....Deus está pedindo o que mais amo....” influenciado por suas práticas pagãs (Cuthbert A. Simpson).

Alguns intérpretes pensam que a dificuldade inteira é aliviada pelo fato de que Deus estava apenas testando Abraão, pois não haveria de permitir que ele realizasse o ato. Outros aplicam aqui uma interpretação alegórica, como se o relato visasse a ensinar lições morais e espirituais, e não a um evento histórico. Alguns eruditos conservadores apenas ignoram o problema. Ver um sumário de ideias dos intérpretes, sobre a questão, no fim do vs. 14. A teologia histórica e a arqueologia têm mostrado que em Ur e vizinhanças praticavam-se sacrifícios humanos para agradar aos deuses, nos dias de Abraão. A mesma coisa ocorria entre as tribos cananéias, vizinhas de Abraão. O rei de Moabe ofereceu em sacrifício um filho seu (II Reis 3.27). Ver detalhes sobre a questão, no verbete Sacrifício Humano.

 

Holocausto.

O animal sacrificado era totalmente queimado como oferta de cheiro suave a Deus. Ver no Dicionário os artigos chamados Ofertas Queimadas e Sacrifícios.

 

Terra de Moriá. No hebraico, “(região) alta”.

Esse nome consiste em três elementos: Men (lugar), ra’ah (ver), e Yah (forma abreviada de Yahweh). Por isso é que alguns estudiosos dizem que o nome significa “visto por Yahweh” ou “esco lhido por Yahweh”. A palavra ocorre somente por duas vezes em todo o Antigo Testamento (Gên. 22.2, para onde Abraão levou Isaque, a fim de oferecê-lo em sacrifício). Esse lugar ficava a três dias de viagem para quem partia da terra dos filisteus (Gên. 21.34), a região de Gerar, mas podia ser visto a distância, devido à sua elevação (Gên. 22.4). E também, em II Crô. 3.1, o local onde foi construído o templo de Salomão, a saber, o monte de Moriá, na eira de Ornã, o jebuseu, onde Deus apareceu a Davi (II Crô. 3.1).

Vários problemas têm surgido no tocante a essa questão. Em primeiro lugar, o sul da Filístia não ficava a três dias de viagem desse lugar. Além disso, quando alguém caminhava para a área do templo, não podia vê-la a distância. A tradição samaritana ligava o monte Moriá ao monte Gerizim. A isso, outros retrucam dizendo que, em vista de o sul da Filístia ficar a cerca de oitenta quilômetros de Jerusalém, poderiam ser necessários três dias de caminhada até a área onde, futuramente, foi construído o templo. Além disso, em Gênesis não está em evidência algum monte isolado, e, sim, toda uma região montanhosa, pelo que essa região é que seria visível a distância. Assim, se o monte Moriá, propriamente dito, não podia ser divisado a distância, as colinas circundantes podiam ser vistas. Josefo concordava com a identificação do monte Moriá como a área do templo (Antiq. 1.12,1; VII.13,4), tal como o faz o livro dos Jubileus (18.13) e a literatura rabínica em geral. Atualmente, há no local uma mesquita islâmica, a mesquita de Omar. Indica também um lugar designado para o exercício do sacrifícios humanos praticados desde os caldeus.

 

22.3

De madrugada.

A fim de albardar o jumento e fazer outros preparativos para a viagem. Abraão estava de coração pesado. Mas fez todas as provisões necessárias, em obediência à ordem divina. Quanto a outras menções à madrugada em Gênesis, quando homens começavam a cuidar de seus afazeres, ver 19.27; 20.8; 24.25; 28.18; 31.55; 40.6. “Todo preparativo para o sacrifício foi minuciosamente cuidado, como que para mostrar a calma com que Abraão se dispôs a obedecer. Chegou a levar a lenha já rachada, não porque em Moriá não houvesse lenha (vs. 13), mas a fim de que, ao chegarem ao destino, nada pudesse distrair seus pensamentos, e o sacrifício pudesse ser oferecido prontamente” (Ellicott, in loc.). “Uma jornada... silenciosa e difícil” (Allen P. Ross, in loc.).

 

Dois dos seus servos.

Eles não são identificados, mas intérpretes judeus, sem base alguma, chamaram-nos Eliezer (ver Gên. 15.2), que então já seria um homem idoso, e Ismael (que estava caçando no deserto da Arábia). Porém a prática em exercício exigia a presença de duas ou mais testemunhas a ação.

 

Isaque.

O filho amado, que era o próprio sacrifício, e, sem sabê-lo, encaminhava-se para a sua execução. Incrível!

 

22.4

Ao terceiro dia.

Uma longa e cansativa viagem, feita de coração triste e com sombrias expectações. Depois da longa jornada: avistaram o local do sacrifício. A região de Moriá ficava a cerca de sessenta e cinco quilômetros de Berseba (onde Abraão residia). Hebrom ficava a trinta e cinco quilômetros de Berseba, e Jerusalém a trinta e dois quilômetros. Viajar trinta e dois quilômetros em um dia não era coisa fácil na antigüidade.

Alguns eruditos vêem sentidos místicos nesse informe, terceiro dia. Cf. Osé. 6.2. Jesus ressuscitou ao terceiro dia (Mat. 17.23; I Cor. 15.4). Assim, simbolicamente, Isaque ressuscitou naquele dia. Isaque transportava a madeira; Jesus carregou a Sua cruz (João 19.17). Isaque foi amarrado; Jesus foi encravado na cruz (Mat. 27.22). Moisés resolveu entrar no deserto caminho de três dias, a fim de oferecer sacrifício (Êxo. 15.22); Israel viajou três dias deserto adentro antes de achar água (Êxo. 15.22). Por três dias, a arca da aliança foi adiante do povo, em busca de um lugar de descanso (Núm. 10.33). Ao terceiro dia, o povo de Israel deveria estar pronto a receber as leis de Deus (Êxo. 19.11). Depois de três dias, teriam de cruzar o rio Jordão (Jos. 1.14). Ao terceiro dia, Ester vestiu-se em sua roupagem real (Est. 5.1). Podem ser achadas outras referências bíblicas, mas parece que neste texto não há nenhum sentido especial no terceiro dia.

 

Iremos até lá.

Abraão e Isaque seguiram sozinhos, a partir dali, deixando para trás os dois servos. Estes não podiam ser testemunhas do que estava prestes a acontecer.

 

Havendo adorado.

Um rito religioso que ultrapassava a imaginação estava prestes a ter lugar. A garganta de Isaque seria cortada (o golpe mortal); seu corpo seria despedaçado; os pedaços do corpo seriam arrumados por sobre a lenha; e então tudo seria consumido no fogo, até tomar-se cinzas. Assim se consumaria o sacrifício de Isaque. Assim adoravam os povos antigos, uma espécie de sacrifício que Cristo eliminou para sempre na cruz. Aqui métodos primitivos gritam diante de nós, e alegramo-nos que tudo tenha ficado enterrado no passado. Verdadeiramente, chamar isso de adoração causa-nos admiração, segundo observou um comentador. O trecho de Heb. 11.17,19 fala da ressurreição de Isaque, dando uma interpretação cristã ao episódio, embora o próprio texto não fale nesse tipo de expectativa por parte de Abraão. Antes, temos o drama de um sacrifício inacreditável, não-mitigado pela esperança, que tinha em mira apenas a obediência, severa e inflexível.

 

Voltaremos.

Isso pode ser cristianizado sob a forma “depois da ressurreição de Isaque, voltaremos para junto de vós”.

A cultura indica uma ação imprudente por parte de Abraão em não levar os depoentes no âmbito jurídico/formal, podendo julga-lo por facilitação do imolado, o que era comum por parte do ritualista.

Subtende-se que muitos por comoção, facilitava a fuga ou escapamento daquilo que seria seu sacrifício, alegando assim, ...uma cerimônia mal sucedida...

Que em muitos casos era exigida a execução para a ação, o sacrifício seria praticado por alguém sem parentesco. Porém o sacrifício não teria sentimento ou reminiscência (não traria recordações e cairia no esquecimento).

Tremendo milagre! Mas nada disso fica entendido no próprio texto. Os intérpretes judeus não viam aqui a idéia de ressurreição, mas apenas afirmavam que Abraão disse isso “no espírito da profecia”. O Espírito fê-lo ver um final feliz. Mas isso é improvável. Nada foi capaz de aliviar a dor daquele momento.

 

22.6

A lenha... a colocou sobre Isaque.

Isaque transportou a lenha; mas logo estaria em pedaços sobre ela. Tal como Jesus carregou a Sua própria cruz (João 19.17), assim também Isaque levou a lenha de seu sacrifício. O cutelo cortaria a garganta de Isaque, e a fogueira transformaria seu corpo em uma tocha, até tê-lo reduzido a cinzas.

 

Um Tipo.

A lenha pode indicar nossos pecados, postos sobre Jesus, o Cristo, ou, então, a cruz na qual Ele foi crucificado. É nesta altura da Bíblia que lemos pela primeira vez sobre o fogo e sobre facas, usados pelos homens, embora ambas as coisas desde muito antes de Abraão fossem conhecidas.

 

22.7

Onde está o cordeiro. . .?

Isaque estava familiarizado com sacrifícios de animais, e percebeu que lhes faltava alguma coisa. Faltava o cordeiro. É mister fazer provisão para qualquer tarefa a ser cumprida. Isaque não sabia como conseguir o item que faltava. Quem teria pensado em uma coisa tão horrível? Ver no Dicionário o artigo intitulado Sacrifícios e Ofertas. Os primeiros sete capítulos de Levítico são a principal fonte informativa sobre como, dentro da legislação mosaica, eram efetuados os sacrifícios, e quais animais eram tidos como legítimos como sacrifícios. Caim e Abel também tinham trazido sacrifícios e ofertas (Gên. 4.4,5), pois, do ponto de vista da Bíblia, desde o começo, esses ritos religiosos e esse tipo de adoração já existiam. Todos os sacrifícios eram reputados como meras sombras de aspectos da missão e da obra remidora de Cristo (Heb. 8.7; 10.1; ver também 9.13,14).

 

22.8

Deus proverá. . . o cordeiro.

Para aquela ocasião. Os intérpretes judeus consideram que Abraão falou como profeta, sabendo no seu subconsciente que Isaque seria poupado. Mas outros pensam que ele falou em tom de desespero, como se estivesse querendo dar a entender: “Tu, meu filho, és o sacrifício, conforme logo descobrirás. Tu és a provisão de Deus". Abraão já havia sido chamado de profeta (Gên. 20.7, a única vez em que esse vocábulo é usado em Gênesis; ver as notas ali). Dotado de poderes especiais, incluindo a predição, ele podia ver em sua alma uma provisão divina especial que salvaria a vida de Isaque. Eruditos evangélicos pensam que ele também previu o Cordeiro de Deus, a provisão universal. Ver no Dicionário os verbetes Ovelha e Cordeiro de Deus, quanto a abundantes detalhes sobre essas questões. O Cordeiro de Deus seria o cumprimento final de todos os tipos e sombras que tinham sido dados antes (Heb. 8.7; 10.1).

O texto ilustra a fé resoluta de Abraão e a submissão de Isaque, uma de suas grandes qualidades espirituais. Pai e filho seguiram “ambos juntos", mostrando que eles se equiparavam em suas virtudes espirituais. O trecho de João 8.56 mostra-nos que Abraão fora capaz de prever a vinda do Messias. Os autores judeus dão grande crédito a Isaque, neste episódio. Sem dúvida, ele estava familiarizado com sacrifícios humanos, e eles supuseram que Isaque tenha compreendido que ele seria a vítima. Mas, conforme diz o Targum de Jerusalém, mesmo assim ele prosseguiu “com mente e coração tranqüilo, submisso e bem-comportado".

 

22.9

Chegaram ao lugar, ou seja, onde o sacrifício ocorreria.

Chegara o momento mais crítico. Três dias de caminhada tinham-nos trazido até aquele temível lugar, onde Isaque, o filho amado, seria sacrificado. O lugar foi o monte Moriá (ver o vs. 2 e suas notas). Davi e Salomão edificaram altares ali, tal como Abraão também o fez, naquele momento. Abraão erigia altares em todos os lugares onde chegava (Gên. 12.7,8; 13.4,18). Ver no Dicionário o verbete intitulado Altar. Mas ali, no monte Moriá, estava o altar mais importante, o lugar onde seu filho querido, Isaque, seria sacrificado. Na antigüidade eram erigidos altares simples, feitos de terra ou de pedras. Dispôs a lenha. A lenha que ele tinha posto sobre os ombros de Isaque.

 

Amarrou Isaque.

Os animais sacrificados eram amarrados porque, percebendo o que estava sucedendo, sem dúvida ofereciam resistência. Mas Isaque, sendo jovem, muito mais forte que seu idoso pai, deve ter-se submetido voluntariamente. A cena é quase inconcebível! Os críticos rebelam-se neste ponto, não crendo que um homem da estatura espiritual de Abraão pudesse ter feito algo assim. E pensam que o relato é lendário. Mas outros simplesmente opinam que Abraão, apesar de todo o seu progresso espiritual, era produto de sua época. quando ainda havia sacrifícios humanos. Ver no Dicionário o verbete Sacrifício Humano. Os eruditos conservadores, por outra parte, olham em outra direção, não ousando contemplar Abraão a preparar-se para efetuar o sacrifício. Alguns chegam a temer comentar sobre o texto com maior profundidade. Ainda há aqueles que alegorizam todo o lance. Ver meus comentários de introdução ao primeiro versículo deste capítulo, bem como sobre outras idéias, no segundo versículo. 22.10 E, estendendo a mão. . . para imolar o filho. Abraão quase concluiu o sacrifício. O cutelo chegou a ser erguido. Golpearia ele a garganta de Isaque como era usual, ou atingiria ele o coração do rapaz? Fosse como fosse, seria um golpe mortal. E, então, Abraão deceparia o corpo de seu filho, pô-lo-ia sobre a lenha e o consumiria a fogo sobre o tosco altar. Uma cena quase inimaginável! “Ele brandia o cutelo na mão, pronto a cortar a garganta de seu filho, com um golpe final..." (John Gill, in loc.).

 

Senhor, disse eu, 

Jamais eu poderia matar um meu semelhante; Crime de tal grandeza cabe a um selvagem somente, É o crescimento venenoso da mente maligna, Ato alienado dos mais indignos.

Senhor, disse eu,

Jamais eu poderia matar um meu semelhante, Um ato horrível de raiva sem misericórdia, Punhalada irreversível de inclinações perversas, Ato não imaginável de plano ímpio. Disse o Senhor a mim: Uma palavra sem afeto lançada contra vitima que odeias, É um dardo abrindo feridas de dores cruéis. A bisbilhotice corta o homem pelas costas, Um ato covarde que não podes retirar. Ódio no teu coração, ou inveja levantando sua horrível cabeça é um desejo secreto de ver alguém morto.

(Russell Champlin)

 

22.11

Do céu. Ver Gên. 11.4 e 22.15; e, no Dicionário, o verbete intitulado Céu. O Anjo do Senhor. Até este ponto no livro de Gênesis já pudemos apreciar várias cenas de ministério angelical. Ver 16.7,9-11; 19.1,15; 21.17. Ver também Gên. 22.15; 24.7,40; 28.12; 31.11; 32.1; 48.16. Ver no Dicionário o artigo geral chamado Anjo. Não há que duvidar da existência de seres não-materiais, invisíveis e poderosos, os quais podem entrar em contato com homens no cumprimento de várias missões.

Até esta altura da narrativa, Elohim é o agente ativo do drama. Agora Ele enviava o Seu Anjo para impedir o sacrifício humano que estava prestes a ocorrer. O Anjo chamou Abraão. Sua voz soou alta e clara. Abraão fez parar o movimento da mão. Ele estava ali para ouvir e obedecer, uma vez mais. Dessa vez, houve uma feliz obediência. E Isaque foi poupado de uma morte horrível.

 

Anjo.

Alguns pensam estar em foco uma aparição do Logos no Antigo Testa mento, o qual sempre foi, é e será o único Mediador entre Deus e o homem (I Tim. 2.5). Mas talvez essa opinião reflita uma exagerada cristianização do texto.

 

22.12

Não estendas a mão.

Deus nunca tivera a intenção de que aquele ato terrível fosse levado à conclusão. Mas até então nem Abraão nem Isaque sabiam disso. Portanto, a fé de Abraão e a submissão de Isaque foram testadas supremamente.

 

Agora sei.

Palavras com sentido antropomórfico, pois Deus não fica sabendo das coisas. Seu conhecimento foi apenas confirmado pelo ato de obediência de Abraão, uma obediência absoluta e inquestionável. Ver no Dicionário o artigo Antropomorfismo.

 

Temes Deus.

O texto contém um jogo de palavras, mas que não transparece nas traduções. Yere Elohim (temes a Deus) é um jogo de palavras com el yireh (Deus verá), no vs. 14. Devemos entender isso como “Deus verá como O temes, e não perderás o teu galardão”. O sacrifício real, o Cordeiro de Deus, não foi poupado, como Isaque o foi, por quanto havia a imposição de uma necessidade divina. Em Sua agonia, Jesus procurou escapar, mas não Lhe foi permitido isso, conforme foi permitido a Isaque (Mat. 26.39). Abraão foi um tipo do Pai, que sacrificou; Isaque foi um tipo do Filho, que foi sacrificado, mostrando-se “obediente até à morte” (Fil. 2.8). Considerado um tipo, o relato do sacrifício de Isaque é uma das mais importantes narrativas do Antigo Testamento. Muitos dados teológicos são abrangidos pelo incidente, segundo se vê no Novo Testamento.

 

Não me negaste... o teu único filho.

De acordo com o Anjo do Senhor, essa é a principal lição a ser extraída de todo o episódio. Abraão fez um sacrifício supremo, tendo o Senhor considerado que ele foi até as últimas consequências, embora Deus lhe tenha impedido de chegar à temível conclusão. E Isaque demonstrou uma obediência suprema, secundando a obediência de Abraão.

“Aquele que não poupou seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou...” (Rom. 8.32). E agora, como não nos daria, juntamente com Ele, todas as coisas? O ato de obediência de Abraão foi recompensado por uma nova reiteração do Pacto Abraâmico (Gên. 22.15 ss.). O Filho maior de Abraão, o Messias, foi quem tornou realidade o cumprimento maior das dimensões espirituais do pacto.

 

22.13

Um carneiro preso pelos chifres.

Eis aí o substituto previsto (vs. 8). Esse animal, como todos os animais sacrificados no Antigo Testamento, era tipo do Cordeiro de Deus. Em face dessa substituição, a vida de Isaque foi poupada. É devido a Cristo, nosso Substituto, que todas as almas podem ser liberadas. A provisão de Deus foi adequada no caso de Isaque, e outro tanto quanto à missão remidora de Cristo, no que nos diz respeito.

Talvez o carneiro tivesse quatro chifres, um animal que ainda é comum no Oriente Médio. Devemos pensar em um animal selvagem, e não domesticado. Não foi por acaso que o animal estava ali. O local era habitual por sequencias de cerimônias muitas delas interrompidas pelo ritual mal sucedido. Houve um desígnio divino na questão, mesmo porque nada acontece por mero acaso. A providência divina é, portanto, uma das lições contidas no texto. Ver no Dicionário o artigo intitulado Providência de Deus.

 

Um Holocausto em Lugar de Isaque.

Este versículo subentende a natureza vicária do sacrifício de Cristo, tão óbvia no Novo Testamento. A epistola aos Hebreus ensina-nos que tudo quanto aconteceu antes foi mero tipo e sombra de Cristo (ver Heb. 8.7 e 10.1). Ver as notas em João 1.29, na Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia; e ver no Dicionário o artigo intitulado Cordeiro de Deus. Ver também Rom. 8.32, onde “poupou” é tradução da mesma palavra grega usada na Septuaginta em Gên. 22.2, epheiso.

 

A Provisão da Graça.

Não foi Abraão quem trouxe o carneiro. O animal já estava ali. Logo, foi mister certa medida de graça divina para que a transação se completasse. Ver no Dicionário o verbete Graça.

 

22.14

O Senhor proverá. No hebraico, Yahweh-jireh.

Ver no Dicionário os artigos sobre Yahweh e sobre vários outros nomes de Deus, isolados ou em suas combi nações. Ver também o verbete Deus, Nomes Bíblicos de. O apelativo Yahweh- jireh significa “Deus verá”. Quando estava prestes a sacrificar a Isaque, Abraão usou esse nome, ou seja: “O Senhor verá e proverá um substituto para ser sacrificado em teu lugar, ó Isaque”. Isso ocorreu no monte Moriá. Isto posto, alguns estudiosos têm insistido em que essa expressão pode dar a entender ambas as idéias de ver e de prover. Assim, Yahweh veria e interviria, o que serve de grande encorajamento para todos quantos Nele confiam.


Um Provérbio Resultante.

Os homens não se olvidaram daquela ocasião memorável, lembrete de um momento especial no monte Moriá, quando Deus interveio em favor de Abraão e Isaque. “No monte do Senhor se proverá”, ou seja, é admirável que a providência divina possa ser aplicada a todos nós, em muitas oportunidades. Abraão viu grandes coisas, e nós também. No monte, pois, Deus fez uma provisão especial (conforme dizem algumas traduções, inclusive nossa versão portuguesa, ao passo que outras preferem destacar a idéia de “ver”). Essa provisão foi marcante, o que mostra que Yahweh está sempre próximo para prover-nos o necessário.

 

Proibição acerca de Sacrifícios Humanos.

Deus não permitiu que se consu masse o sacrifício de Isaque. Portanto, dali por diante nunca mais dever-se-ia tentar tal coisa. É possível que esse relato tenha sido um dos fatores que fez descontinuar todo sacrifício humano em Israel. Deus não permitiu que Abraão sacrificasse seu filho. Logo, ninguém deve agora fazer sacrifícios humanos. Seja como for, tornou-se terminantemente proibida essa prática. Ver Lev. 18.21 e 20.2,3. Diz aqui a Septuaginta: “No monte, Yahweh será visto”, ou seja, será visto a prover, a cuidar dos que Lhe pertencem, a mostrar o Seu poder. Isso, por sua vez, é cristianizado para indicar que, no monte Calvário, Deus completaria a Sua provisão. Yahweh apareceria ali em favor dos homens. “Deus manifesto na carne, o Emanuel” (John Gill, in loc.). Alguns intérpretes identificam o monte desta história com o monte Calvário. Isso seria uma coincidência notável, mas não há como examinar e comprovar a questão. Seja como for, há uma identificação espiritual, mesmo que talvez não haja uma identificação de localização topográfica.

 

Sumário de Interpretações acerca dos Sacrifícios Humanos, no que Tan ge a Este Texto: 

1. Um Relato Não-Histórico (posição do ceticismo).

A narrativa seria lendária e, naturalmente, conteria elementos (desagradáveis para nós) que faziam parte da cultura da época. Se o relato é muito antigo (o que é possível), então surgiu em uma época em que não se fazia objeção a sacrifícios humanos. De fato, isso era aprovado como um ato de adoração suprema.

2. Um Relato Não-Histórico (posição da Alta Crítica).

O relato seria um dos muitos mitos que cercam a pessoa de Abraão, ainda que, provavelmente, ele tenha sido uma personagem histórica. Ele foi um herói dos hebreus, tal como Homero, em sua Ilíada, apresentou muitos heróis fictícios. Talvez algum mate rial histórico tenha sido injetado em tais lendas. Naturalmente, estão ali conti dos alguns elementos contrários à nossa atitude espiritual, entre os quais a questão dos sacrifícios humanos.

3. Um Relato Histórico Literal (posição ultraconservadora).

Deus, de fato, quer gostemos disso quer não, ordenou um sacrifício humano, e Abraão nada viu de errado nisso. O acontecimento foi uma ocorrência histórica real, ordenada por Deus.

4. Um Relato Histórico Literal (posição do voluntarismo).

Aquilo que Deus de termina é correto, não havendo razão para supormos que Sua vontade corresponda necessariamente àquilo que nós pensamos que é certo. Deus faz o que bem quer, e aquilo que Ele quer torna-se automaticamente correto — essa é a opinião do voluntarismo. Ver no Dicionário o artigo intitulado Voluntarismo.

5. Posição Conservadora Modificada.

Essa posição tem assumido várias formas, a saber: a. b. c.

a.      Deus determinou o sacrifício, que foi um evento histórico. Desde o princípio, porém, Deus não queria que Abraão o consumasse. Logo, na verdade, nenhum sacrifício humano foi determinado. Tudo apenas serviu para testar a fé de Abraão.

b.      Deus ordenou o sacrifício a fim de dar-nos um tipo maravilhoso. Isaque serviu de tipo de Cristo; e Abraão serviu de tipo do Pai, que sacrificou a Seu Filho. Para que esses tipos fossem vívidos e poderosos, foi mister permitir que o ambiente cultural de Abraão suprisse um ingrediente essencial: a aceitação de sacrifícios humanos.

c.       Uma alegoria literária teria sido fornecida pelo autor do livro de Gênesis, a fim de ensinar importantes lições. Não precisamos pensar que temos aqui um evento histórico.

d.      Uma não-interpretação, “deixa para lá". Vários autores conservadores preferem não comentar sobre o aspecto de sacrifício humano do relato, mas apenas extraem várias lições morais e espirituais do episódio. Algu mas vezes é melhor não dissecar a Palavra de Deus.

6. Sacrifícios Humanos São Proibidos.

Essa explicação pode encarar a história como histórica ou como não-histórica. De ambos os modos, o propósito central teria sido proibir sacrifícios humanos. Deus ordenara que Abraão ofereces se Isaque em sacrifício. Mas Sua real intenção era descontinuar o ato, a fim de dar-nos uma lição objetiva. “Doravante, ponham isto na cabeça", Deus poderia ter dito. “Eu interrompi o ato, e vocês devem fazer a mesma coisa.’ 157 O Acúmulo de Descrições. Como Abraão haveria de multiplicar-se? De três maneiras: 1. Como as estrelas (Gên. 15.5, onde damos as notas a respeito; ver também Gên. 26.4) 2. Como a areia da praia (repetido em Gên. 32.12). 3. Essa teria sido a instrução divina.

7. A Teologia é Progressiva.

Qualquer interpretação sã deve levar em conta a progressão da teologia, que é um corpo crescente de conhecimentos revela dos. Às vezes, o que é aceitável em um período, fica ultrapassado em outro. Ver Luc. 9.54-56.

 

Por: Russell Norman Champlin, Ph. D.

O Novo Testamento Interpretado A Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia O Antigo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Editora Hagnos

Editado Por: Joel Silva


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Hernandes D. Lopes - Jó

Wayne Gruden

Ariovaldo Ramos