Romanos I


Romanos I
 

 

Devemos ter em mente que a contextualização histórica e sociocultural auxilia em muito na compreensão da sociedade à época do apóstolo Paulo, porém, pouco auxilia na compreensão das nuances que firmam a ideia que o apóstolo procurou transmitir (...) Quando o profeta Habacuque afirma que: "O justo viverá da fé", temos que verificar qual 'fé' ele estava abordando, visto que Jesus disse que "...está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus" ( Mt 4:4 ); ou seja, sabemos que ambos, Jesus e Habacuque anunciaram a palavra de Deus, e que a palavra de Deus não se contradiz.

A Carta de Paulo aos Romanos é um livro extremamente atual para a Igreja de todas as épocas, inclusive a nossa. Nessa carta encontramos profundas instruções no tocante à vida e à doutrina. De todas as epístolas que o apóstolo Paulo escreveu, a Epístola aos Romanos é a que contém a maior exposição de sua parte sobre o Evangelho.

 

Quem escreveu a Carta de Paulo aos Romanos?

A resposta para essa pergunta é facilmente encontrada logo no primeiro versículo da Carta aos Romanos:

Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus.

(Romanos 1:1)

Além dessa referência direta, detalhes biográficos presentes nos capítulos 1, 15 e 16 não deixam qualquer dúvida de que Paulo de Tarso foi realmente o autor da Carta aos Romanos. Os pais da Igreja nos primeiros séculos também já concordavam com a autoria de Paulo; entre eles: Policarpo (Bispo de Esmirna e discípulo de João); Irineu (cerca de 182 d.C.); Orígenes (210-250 d.C); Clemente de Alexandria (190-200 d.C.); e Tertuliano (193-216 d.C.).

O Fragmento Muratoriano de cerca de 180 d.C. também confirma a autoria de Paulo. Ainda assim, mesmo com tantas provas, alguns estudiosos contestam tal autoria. Porém, seus argumentos não são nada convincentes e nem merecem uma atenção maior.

 

Data e contexto histórico da Carta de Paulo aos Romanos

Muito provavelmente Paulo escreveu a Epístola aos Romanos pouco antes de sua visita a Jerusalém. As maiores evidências apontam para o período descrito em Atos 20:2, durante os meses que o apóstolo ficou na Grécia, mais precisamente em Corinto.

Em sua terceira viagem, Paulo, passou pelas “regiões mais altas” (Atos 18:23-21:16). Ali ele cumpriu sua promessa de permanecer na região por um longo período, onde foi muito bem-sucedido (Atos 19:1,8,10; 20:3).

É provável que a maioria, ou talvez todas as sete igrejas da Ásia, tenha sido fundada durante esse período (Apocalipse 1:4). Sendo assim, parece que antes de escrever a Primeira Epístola aos Coríntios, Paulo fez uma segunda visita à cidade de Corinto, voltando mais tarde a Éfeso (2 Coríntios 12:14; 13:1). Pouco tempo depois ele escreveu 1 Coríntios.

Quando deixou Éfeso, Paulo partiu para a Macedônia. Nesse período, talvez em Filipos, o apóstolo escreveu a Segunda Epístola aos Coríntios. Finalmente, quando Paulo chegou a Corinto, em sua terceira visita à essa cidade, pouco antes de partir novamente, ele escreveu a Carta aos Romanos (Romanos 15:22-25; cf. 20:3).

Considerando tudo isso, a data mais recuada possível estipulada para a produção da Carta aos Romanos é o final do ano de 54 d.C e início de 55 d.C. Porém, considerando as muitas atividades desenvolvidas por Paulo nesse período, a melhor data seria entre o fim de 55 d.C. e o primeiro semestre de 58 d.C.

Apesar da tradição dos primeiros séculos que retrocede até Irineu, é certo que a igreja de Roma não foi fundada nem pelo apóstolo Paulo nem pelo apóstolo Pedro. É evidente que Paulo nunca tinha visitado à igreja em Roma (Romanos 1:8-13). A fé que tinham os cristãos de Roma já era bem conhecida; tanto que Paulo desejava visitá-los há um bom tempo (Romanos 1:13).

A possibilidade mais provável é que a igreja de Roma foi iniciada por judeus e prosélitos que haviam testemunhado os milagres do Pentecostes. Ao retornarem aos seus lares em Roma, essas pessoas começaram a se reunir em como uma pequena comunidade local.

 

Quem foram os destinatários da Carta de Paulo aos Romanos?

A resposta para essa pergunta tem gerado um debate entre os teólogos ao longo dos anos. Sabe-se que a igreja de Roma era formada por judeus e gentios. Isso praticamente nenhum estudioso contesta. O ponto em debate fica por conta da definição sobre qual seria o grupo predominante, se judeus ou gentios.

Para responder essa pergunta de forma mais completa, seria necessário uma longa dissertação considerando todas as possibilidades e sugestões possíveis até agora levantadas. Isso seria inviável neste estudo.

De forma bem resumida, sobre essa discussão, a melhor posição é defender que o grupo predominante na igreja de Roma era os gentios, embora seja impossível determinar a proporção de judeus em relação aos gentios na composição do número completo de fiéis. Entre as referências que favorecem essa posição podemos citar: Romanos 1:5,6,13; 11:13; 15:9-18.

Algo importante que precisa ser considerado em qualquer discussão sobre as características da composição da igreja romana, é o fato de que na época, no início do cristianismo entre os séculos 1 e 2 d.C., não existia o conceito de edifícios eclesiásticos como conhecemos hoje. Logo, as famílias faziam cultos em seus próprios lares, geralmente com a participação do pai, mãe, filhos, servos e às vezes outros parentes próximos.

Dependendo do tamanho da casa, mais convidados eram agregados. Embora em Romanos 16:5 temos referência a uma dessas casas onde os cultos eram realizados, de fato não sabemos quantas dessas casas-igreja havia em Roma.

Por fim, a própria Carta aos Romanos nos mostra que essa discussão é completamente desnecessária, ao fazer a seguinte declaração:

Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam.

(Romanos 10:12)

 

Propósito da Carta de Paulo aos Romanos

Falando sobre o propósito da Carta aos Romanos, muito tem sido debatido sobre as razões que levaram o apóstolo Paulo a escrever essa epístola. Esses debates resultaram nas mais variadas opiniões.

Quando Paulo escreveu essa carta, ele estava analisando o seu ministério e via que se encontrava em um ponto crucial. Paulo havia alcançado o fim da sua obra missionária na parte oriental do Império Romano. Ele tinha plantado o Evangelho nos grandes centros, e considerava ser o momento apropriado para uma empreitada a Oeste para a evangelização da Espanha (Romanos 15:17-24).

Entretanto, Paulo compreendia que não podia partir diretamente para Roma via Golfo de Corinto e Mar Jônico. Isso porque ele estava conduzindo uma campanha de arrecadação de donativos em benefício aos irmãos pobres de Jerusalém. Pessoalmente, querendo o Senhor, ele pretendia ir a Jerusalém. Após completar essa parte, então ele seguiria seu caminho a Roma.

Diante desse contexto, alguns acreditam que o apóstolo desejava visitar os cristãos romanos para ganhar a ajuda deles como uma igreja de apoio em sua próxima empreitada missionária, fazendo da igreja de Roma a sede missionária para a evangelização da Espanha (Romanos 15:24).

Outros defendem que a principal razão que levou Paulo a escrever a Carta aos Romanos foi questões pessoais, no sentido de que ele gostaria de se comunicar com seus amigos em Cristo. Ele queria visitá-los posteriormente a fim de ser uma benção a seus amigos e ser por eles reanimados (Romanos 1:8-12; 15:22).

Porém, Paulo deixa transparecer um certo temor de que não conseguiria chegar a Roma (Romanos 1:10; 15:31). Há também quem ressalte a ênfase posta na motivação teológica, no sentido de que Paulo desejava corrigir os erros dos antinomianos.

É possível que todas as alternativas levantadas estejam corretas. Então não há necessidade de eleger apenas uma delas, já que todas estão intimamente ligadas. Juntas elas compõem uma característica marcante que evidencia o propósito maior na vida do apóstolo. Veja:

Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns.

 

Resumo, características e temas da Carta aos Romanos

Na Epístola aos Romanos, Paulo apresenta suas credenciais apostólicas (Romanos 2:16; 16:25). Ele fez isso para que a autenticidade de seu ministério não fosse contestada; para defendê-lo das falsas acusações dos boateiros (Romanos 3:8).

Ao escrever a Carta aos Romanos, Paulo estava profundamente atento ao fato de que a Igreja deveria ser uma comunhão entre judeus e gentios. Isso significa que deveria haver plena igualdade, com judeus e gentios juntos na unidade do corpo de Cristo.

Paulo deixa clara a unificação do judeu e do gentio no pecado, por causa da Queda; e também na graça, por meio de Jesus, ressaltando que a justiça salvadora do Evangelho é uma necessidade de ambos. Essa justificação, que vem pela graça por meio da fé, expõe que judeus e gentios, unidos no corpo de Cristo, constituem um único povo. Esse é o povo de Deus, o verdadeiro Israel espiritual.

Na Carta aos Romanos, Paulo une os principais temas das Escrituras. Ele fala sobre: pecado, lei, julgamento, destino humano, fé, obras, graça, justificação, santificação, eleição, o plano de salvação, a obra de Cristo e do Espírito, a esperança cristã, a natureza e vida da Igreja, o lugar de judeus e gentios nos propósitos de Deus, a filosofia da Igreja e a história do mundo, o significado e a mensagem do Antigo Testamento, os deveres da cidadania cristã e os princípios de retidão e moralidade pessoal.

Embora seja nítida essa grande variedade de temas, podemos dizer que um tema está sempre presente na mente do apóstolo na construção dessa epístola: a justificação pela graça mediante a fé. Certamente esse é o tema central da Carta aos Romanos.

 

Atualidade e importância da Carta de Paulo aos Romanos

João Crisóstomo, considerado um dos maiores pregadores do século 5 d.C., pedia que a Epístola aos Romanos lhe fosse lida em voz alta pelo menos uma vez por semana. Agostinho, Lutero e John Wesley, declararam abertamente que vieram à firmeza da fé através do impacto de Romanos em suas vidas. Todos os reformadores consideravam Romanos como sendo a chave divina para o entendimento de toda a Escritura.

Certamente o estudo da Epístola aos Romanos é algo vital e necessário para a nossa saúde, entendimento e crescimento espiritual. A Carta aos Romanos é tão atual nos dias de hoje, quanto nos dias em que foi escrita para aqueles irmãos de Roma no século 1 d.C. 

 

Romanos 1.1-7 

Quando Paulo escreve sua carta aos romanos o faz a uma Igreja que não conhece pessoalmente, situada em um lugar onde nunca esteve, a maior cidade do maior império do mundo, razão pela qual escolhe suas palavras com o maior cuidado.

 

Paulo começa mostrando seus próprios créditos.

(1) Chama-se a si mesmo escravo (doulos) de Jesus Cristo, termo no qual há dois antecedentes de pensamento:

(a) O título favorito de Paulo para Jesus é SENHOR (kurios). Este termo em grego se refere a quem tem a posse indiscutida de uma pessoa ou coisa; significa dono ou proprietário, no sentido mais próprio e absoluto. O oposto do termo SENHOR (kurios) é escravo (doulos). Paulo se considera a si mesmo como escravo de Jesus Cristo, seu Dono e Senhor. Jesus o tinha amado e se deu a si mesmo por ele, portanto tem a segurança de já não pertencer-se mais a si mesmo, mas inteiramente a ele. Sob este aspecto o termo descreve a absoluta obrigação de amor.

(b) Mas o termo escravo (doulos) tem outro aspecto. No Antigo Testamento é a palavra comum para referir-se aos grandes homens de Deus. Moisés foi servo, escravo, doulos do Senhor (Josué 1:2). O mesmo Josué foi doulos de Deus (Josué 24:9).

O título mais arrogante dos profetas, aquele que os distingue de outros homens, é o ser servos e escravos de Deus (Amós 3:7, Jeremias 7:25). Quando Paulo se chama a si mesmo escravo de Jesus Cristo está nada menos que se situando na sucessão dos profetas. A grandeza e a glória destes residia no fato de ser escravos de Deus, e assim também para Paulo. Assim, pois, a expressão escravo de Jesus Cristo descreve ao mesmo tempo a obrigação de um grande amor e a honra de um grande ofício.

(2) Paulo se refere a si mesmo como chamado para ser apóstolo. No Antigo Testamento os grandes homens foram os que ouviram o chamado de Deus e responderam a ele. Abraão ouviu o chamado de Deus (Gênesis 12:1-3). Moisés respondeu ao chamado de Deus (Êxodo 3:10). Jeremias e Isaías foram profetas porque, freqüentemente contra sua vontade, foram levados a ouvir o chamado de Deus e responder (Jeremias 1:4-5; Isaías 6:8-9). Paulo nunca se considerou um homem que aspirou a alguma dignidade, mas sim como alguém a quem lhe foi dado uma tarefa. Jesus disse a seus homens: "Não me escolheram vós , mas sim eu lhes escolhi a vós" (João 15:16). Paulo nunca considerou a vida em termos do que ele queria fazer, mas sim do que Deus lhe propunha.

(3) Paulo se descreve a si mesmo como separado para o evangelho de Deus (Barcelona: separado para servir as boas novas de Deus). Ele se achava duplamente separado. Duas vezes em sua vida este mesmo termo (aphorozein) usa-se com referência a ele.

(a) Foi separado por Deus, ao qual imaginava separando-o até antes de nascer para a tarefa que devia realizar (Gálatas 1:15). Deus tem um plano para cada homem. Todo homem é uma expressão do pensamento de Deus. Nenhuma vida humana carece de propósito, Deus a colocou no mundo para realizar um pouco definido.

(b) Foi separado para os homens. Esta é a mesma expressão utilizada em Atos 13:2, quando o Espírito Santo ordenou aos dirigentes da Igreja de Antioquia separar a Paulo e Barnabé para a missão especial aos gentios. Paulo era consciente de ter uma tarefa que devia realizar para Deus e para a Igreja de Deus.

(4) No ato de ser separado, Paulo estava seguro de ter recebido duas coisas. No V. 5 nos diz quais são.

(a) Tinha recebido graça. Graça indica sempre algum dom absolutamente gratuito e totalmente imerecido. Antes de vir a ser cristão. Paulo esperava obter glória perante os homens e méritos aos olhos de Deus, por meio do meticuloso cumprimento das obras da Lei. Agora chega a compreender que o importante não é o que ele poderia fazer, mas o que Deus tinha feito. Isto foi expresso assim: "A Lei estabelece o que o homem deve fazer; o evangelho, o que Deus tem feito." Paulo compreende agora que a salvação não descansa sobre o que o esforço do homem pode fazer, mas sobre o que o amor de Deus tem feito. Tudo foi de graça, gratuito e imerecido.

(b) Paulo recebeu uma tarefa. Foi separado para ser o apóstolo dos gentios. Ele se reconhece eleito, não para receber uma honra especial, mas uma responsabilidade especial. Sabia que Deus o tinha apartado não para sua glória, mas para realizar uma ação laboriosa. Pode ser que haja aqui um trocadilho. Antes Paulo tinha sido fariseu (Filipenses 3:5). O mesmo nome fariseu pode muito bem significar o separado. É possível que os fariseus fossem chamados assim porque se separaram deliberadamente do povo comum, pois nem sequer permitiam que o bordo de seu manto roçasse a um homem comum.

Os fariseus se teriam estremecido com apenas pensar que o oferecimento de Deus pudesse ser dado aos gentios. Para eles os gentios eram "o combustível para os fogos do inferno". Antes Paulo tinha sido como eles, havia-se sentido separado, de tal maneira que não tinha senão desprezo para com todo homem comum. Agora se reconhece separado, de tal maneira que lhe é imposto dedicar toda sua vida a levar as novas do bom amor a todos os homens de todas as raças. O cristianismo sempre nos separa; mas não por privilégio, nem para a própria glória, nem o orgulho, mas para o serviço, a humildade e o amor para com todos os homens.Além de apresentar seus créditos, nesta passagem Paulo apresenta em seus esboços essenciais o evangelho que prega. Um evangelho centrado em Jesus Cristo (vs. 3 e 4).

 

Com dois elementos em particular:

(a) Um evangelho da encarnação.

Paulo fala de um Jesus que era real e verdadeiramente homem. Um dos maiores pensadores da Igreja primitiva o resumiu quando disse de Jesus: "Ele se fez o que nós somos, para nos fazer o que Ele é." Paulo pregava a respeito de alguém que não era uma figura legendária de uma história imaginária, que não era um semideus, metade Deus e metade homem. Ele pregava de alguém que era real e verdadeiramente um com os homens que veio para salvar.

 

(b) Um evangelho da ressurreição.

Se Jesus tivesse vivido uma vida bela e fosse morto heroicamente, sendo este seu fim, poderia ter sido contado entre as figuras grandes e heróicas, mas não teria sido mais que um entre muitos heróis. O fato de que foi único está garantido para sempre pelo evento de sua ressurreição. Os outros morreram e passaram, deixando sua lembrança. Jesus continua vivendo e sua presença conserva ainda eficaz poder.

 

A CORTESIA DA GRANDEZA

Romanos 1:8-15

Depois de quase dezenove séculos a arrebatada emoção desta passagem ainda vibra nele. Podemos sentir o coração de Paulo estremecendo-se de amor pela Igreja que ele nunca viu. Este era o problema de Paulo ao escrever esta carta. Nunca tinha estado em Roma. Não tinha participado da fundação da Igreja romana. Devia desarmar suspeitas. Devia fazê-los sentir que não era um intruso. Que não estava entremetendo-se onde não tinha direito a fazê-lo. O que devia fazer antes de mais nada era derrubar as barreiras de suspeita e estranhamento.

(1) Paulo, combinando sabedoria e amor, começa com um elogio. Expressa-lhes sua ação de graças a Deus pela fé cristã deles, conhecida por todo mundo. Há pessoas cujas línguas estão afinadas para elogiar, e outras cujas línguas o estão para criticar. Há pessoas cujos olhos estão enfocados para encontrar faltas, e outros cujos olhos o estão para descobrir virtudes.

Diz-se de Tomas Hardy que, se entrava em um campo, nunca veria as flores silvestres, mas o esterco amontoado em um canto. É um fato que sempre obtemos mais das pessoas elogiando-as que criticando-as. Os homens que levam vantagem sobre os outros são os que insistem em ver em outros o melhor que têm. Nunca houve nada tão belo como a civilização dos gregos em sua época de maior esplendor. E dela disse T. R. Glover que foi fundada sobre "uma fé cega no homem comum".

Uma das grandes figuras da guerra de 1914-18 foi Donald Hankey, quem escreveu The Student in Arms. Ele conheceu o melhor e o pior dos homens. Em uma oportunidade escreveu a seu casa: "Se sobreviver a esta guerra escreverei um livro chamado 'A bondade vivente', analisando todo o bom e nobre que é inerente às pessoas singela, e tratando de mostrar como isto deve encontrar seu cumprimento e expressão na Igreja." O mesmo Donald Hankey escreveu um magnífico ensaio intitulado The Beloved Captain. Aí descreve como o amado capitão tomava os torpes para ensiná-los ele mesmo. "Ele os observava e eles a ele, e todos homens se esforçavam para dar o melhor de si."

Ninguém pode buscar salvar os homens a menos que primeiro confie neles. O homem é um pecador que merece o inferno, mas há também em sua alma um herói dormido. Freqüentemente uma palavra de elogio poderá despertar seu dormido heroísmo, quando a crítica e a condenação só poderia levá-lo ao ressentimento e ao desespero.

Aidan foi o apóstolo dos saxões. Tempos antes, no ano 630, o rei saxão fez um pedido a Inglaterra para que fosse enviado um missionário para pregar o evangelho em seu reino. Assim se fez. O missionário voltou falando da "índole obstinada e bárbara dos ingleses". "Os ingleses não têm boas maneiras", disse, "comportam-se como selvagens." Quando informou que a tarefa não tinha futuro, Aidan tomou a palavra. "Penso, irmão", disse, "que você foi muito severo com aqueles ouvintes faltos de conhecimentos; deveria tê-los guiado gentilmente, dando-lhes primeiro o leite da religião e depois a carne." Assim, Aidan foi enviado a Northumbria, e sua afabilidade ganhou para Cristo aquele povo que a crítica severidade de seu irmão monge tinha rechaçado.

(2) Embora Paulo não conhecia pessoalmente os de Roma, nunca deixou de orar por eles com toda perseverança. É sempre um privilégio e dever cristão apresentar diante do trono da graça nossos amados e todos os companheiros cristãos. Em um de seus sermões sobre o Pai Nosso, Gregório de Nisa tem uma passagem muito lírica a respeito da oração: 

"O efeito da oração é a união com Deus e, se alguém estiver com Deus, está afastado do inimigo. Por meio da oração conservamos nossa castidade, controle e moderação e nos afastamos da vaidade. Ela nos faz esquecer injúrias, superar invejas, anular a injustiça e nos dá correção para o pecado. Por meio da oração obtemos bem-estar físico, um lar feliz e uma poderosa e bem ordenada sociedade... A oração é o selo da virgindade e objeto da fidelidade conjugal. Ela ampara o caminhante, protege o que dorme, e dá coragem aos que permanecem em vigília. .. Ela o refrescará quando você estiver arrasado e o confortará na tristeza. A oração é tanto deleite do contente, como refrigério do aflito... A oração é intimidade com Deus e contemplação do invisível... A oração é o gozo das coisas presentes e a substância das coisas por vir."

Até separados das pessoas, sem outro dom que a oferecer-lhes, podemos lhes dar a fortaleza e a defesa de nossas orações.

(3) Paulo, em sua humildade, esteve sempre preparado tanto para receber como para dar. Começa dizendo que quer ir a Roma de modo de poder repartir à Igreja romana algum dom que pudesse confirmá-los na fé. Logo muda. Quer ir a Roma para que ele e a Igreja romana possam confortar-se e fortalecer-se mutuamente, e que cada um possa encontrar riquezas na fé do outro. Há dois tipos de professores. Há aqueles cuja atitude é manter-se acima de seus alunos, dizendo o que deveriam e devem aceitar. E há aqueles que, em efeito, dizem: "Venham, aprendamos isto juntos." Paulo é o maior pensador que a Igreja primitiva tenha dado, e mesmo assim, quando pensa nas pessoas às quais deseja pregar, considera-se a si mesmo não só como doador mas também como receptor deles. Ter humildade para ensinar é tê-la para aprender.

(4) O versículo 14 tem em grego um duplo significado quase intraduzível. O termo traduzido "não gregos" é literalmente bárbaros. Paulo pensava em duas coisas. Era devedor por todas as gentilezas que tinha recebido, e era devedor por causa da obrigação que tinha de lhes pregar. Esta oração tão comprimida significa: "Por tudo o que recebi que deles, e sobretudo pelo que é meu dever lhes dar, sinto-me obrigado a todos os homens." Pode parecer estranho que Paulo fale de gregos, quando está escrevendo aos romanos. A esta altura o termo grego tinha perdido totalmente seu sentido étnico. Não indicava a um nativo do país da Grécia. As conquistas de Alexandre o Grande tinham difundido por todo mundo a língua e o pensamento gregos. De modo que o grego não o era por raça e nascimento. Grego era aquele que tinha a mente e a cultura da Grécia. O bárbaro era, literalmente, aquele que ao falar dizia barbar. Quer dizer, aquele que falava uma língua rústica e inarmônica, em contraste com aqueles que falavam a bela e flexível língua dos gregos. Ser grego era possuir uma determinada mente, gênio e cultura. Um deles disse de seu próprio povo: "Os bárbaros podem tropeçar diante da verdade, mas necessitam um grego para entendê-la." O que Paulo quer dizer é que sua mensagem, sua amizade, sua dívida, sua obrigação, era para com o sábio e o simples, o culto e o inculto, o letrado e o letrado. Tinha uma mensagem para o mundo, e sua ambição era dá-lo algum dia também em Roma.

 

BOAS NOVAS QUE ORGULHAM

Romanos 1:16-17

Chegando a estes dois versículos, passamos os preliminares e ressoa o chamado de trombeta do Evangelho de Paulo. Muitos dos grandes concertos de música clássica começam com um estalo de acordes, para logo anunciar o tema que terá que elaborar e desenvolver. A razão para isso é que freqüentemente foram primeiro oferecidos em reuniões privadas em grandes mansões. Quando o pianista se sentava ao piano ainda havia cochichos e murmúrios. Tocava então os acordes iniciais para atrair a atenção do grupo, e uma vez obtida introduzia o tema. Previamente a estes dois versículos Paulo esteve fazendo contato com as pessoas à quais escreve, atraindo sua atenção. Feita já esta introdução formula agora o tema.

Temos aqui só dois versículos, mas representam suficientemente a quintessência do evangelho de Paulo para nos manter neles um tempo considerável.

Paulo começa dizendo que está orgulhoso do Evangelho que tem o privilégio de anunciar. É algo surpreendente pensar no pano de fundo desta declaração. Paulo foi prisioneiro em Filipos, foi deslocado de Tessalônica, fugiu da Beréia, escarneceram-se dele em Atenas. Tinha pregado em Corinto onde sua mensagem foi uma insensatez para os gregos e uma pedra de escândalo para os judeus, e sobre este pano de fundo Paulo declara estar orgulhoso do Evangelho. Havia algo no Evangelho que o fazia triunfalmente vitorioso acima o que os homens pudessem lhe fazer.

Nesta passagem encontramos três grandes consigna paulinas. São elas, certamente, os três grandes pilares de seu pensamento e fé.

(1) Encontramos o conceito de salvação (soteria).

Nessa época da história, a salvação era uma das coisas que os homens estavam buscando. Houve um tempo em que a filosofia grega tinha sido especulativa. Quatro ou cinco séculos antes estes homens se dedicavam a discutir o problema de qual seria o elemento básico primitivo da composição do mundo. A filosofia tinha sido especulativa, resultando em uma filosofia natural. Mas pouco a pouco, com o passar dos séculos, a vida decaiu. Os marcos antigos foram destruídos. Tiranos, conquistadores e perigos ameaçaram os homens. Perseguiram-nos a degeneração e a fraqueza e a filosofia mudou sua ênfase. Veio a ser prática em vez de especulativa. Deixou de ser filosofia natural para converter-se em filosofia moral. Seu meta principal foi construir "um muro de defesa contra o avanço do caos do mundo".

Epicteto chamou sua sala de conferências "o hospital para a alma doente". Epicuro chamou seu ensino "a medicina da salvação".

Sêneca, cuja vida coincidiu no tempo com a de Paulo, afirmou que todos os homens estavam orientados ad ad salutem, rumo à salvação. O que precisamos — disse —, é "uma mão que baixe para nos levantar". Os homens, disse ele, têm uma cansativa consciência de "sua fraqueza e ineficácia nas coisas necessárias". Ele disse ser para si mesmo homo non tolerabilis, um homem intolerável. Os homens amam seus vícios, disse com certo desespero, e os odeiam ao mesmo tempo. Neste mundo sem esperança — disse Epicteto — os homens buscam paz "não a proclamada pelo César, a não ser por Deus". Dificilmente haverá uma época da história em que os homens busquem a salvação tão universalmente.

Foi precisamente essa salvação, esse poder, essa saída que o cristianismo devia oferecer aos homens.

 

Consideremos o significado desta soteria — salvação — cristã.

(a) Significava salvação da enfermidade física (Mateus 9:21; Lucas 8:36). Não era algo totalmente de outro mundo. Tinha como propósito resgatar o homem em corpo e alma.

(b) Significava salvação do perigo (Mateus 8:25; 14:30). Não era que a salvação desse ao homem uma vida livre de ameaças e perigos, mas sim lhe conferia algo que dava segurança à sua alma acontecesse o que acontecesse.

A salvação cristã torna o homem seguro, independentemente de qualquer circunstância externa.

(c) Significava salvação da corrupção da vida. O homem é salvo de uma geração corrupta e perversa (Atos 2:40). O homem que tem esta salvação cristã possui um tipo de anti-séptico divino que o protege da infecção do mal do mundo.

(d) Significava salvação da perdição (Mateus 18:11; Lucas 19:10). Jesus devia buscar e salvar o que se perdeu. O não salvo é o homem que se acha extraviado no caminho errado, um caminho que leva a morte. O salvo é o homem que foi posto no caminho correto.

(e) Significava salvação do pecado (Mateus 1:21). Um homem é como um escravo de um amo do qual não pode escapar. É como um paciente que pode diagnosticar a enfermidade, que sabe o que anda mal, mas não pode achar o remédio. A salvação cristã o liberta da tirania do pecado.

(f) Significava salvação da ira de Deus (Romanos 5:9). Na passagem seguinte teremos ocasião de discutir o significado desta frase. No momento, basta notar que existe no mundo uma lei moral inexorável, que na fé cristã há um inevitável elemento de juízo. Sem a salvação que Cristo traz, a única possibilidade para o homem é a condenação.

(g) Significava uma salvação escatológica. Isto é, encontra sua completa consumação mais além do tempo. Encontrará o seu completo significado e bênção no triunfo final de Jesus Cristo (Romanos 13:11; 1 Coríntios 5:5; 2 Timóteo 4:18; 1 Pedro 1:5).

A fé cristã veio a um mundo desesperado oferecendo salvação – soteria – uma segurança que pode manter o homem seguro no tempo e na eternidade.

 

(2) Encontramos o conceito de fé.

Fé, no pensamento de Paulo é um termo muito rico.

(a) Em seu sentido mais simples significa lealdade, fidelidade. Quando Paulo escreveu aos Tessalonicenses quis conhecer a respeito de sua fé. Isto é, quis saber em que medida sua lealdade se manteve firme na prova. Em 2 Tessalonicenses 1:4 se combinam fé e paciência. A fé é a constante lealdade e fidelidade que caracterizam o verdadeiro soldado de Jesus Cristo.

(b) Fé significa crença. A convicção de que algo é verdadeiro. Em 1 Coríntios 15:17 Paulo diz aos coríntios que se Jesus não ressuscitou dentre os mortos seu fé é vã. Naufraga tudo o que eles tinham crido. A fé é o assentimento de que a mensagem cristã é verdadeira.

(c) Fé significa freqüentemente a religião cristã, como nós falamos da fé. Em 2 Coríntios 13:5 Paulo convida seus oponentes a examinar-se para ver se estavam na fé, isto é, para ver se ainda estavam na religião cristã.

(d) Fé é, muitas vezes equivalente a esperança indestrutível. Paulo escreve: “Porque andamos por fé e não por visão” (2 Coríntios 5:7, TB).

(e) Mas em seu uso mais caracteristicamente paulino fé significa aceitação total e confiança absoluta. Significa "apostar a vida" de que há um Deus". Significa estar absolutamente seguro que o que Jesus disse é verdade, e apoiar o tempo e a eternidade sobre essa segurança. "Creio em Deus", disse Stevenson, "e se despertar no inferno continuarei crendo nEe."

A fé começa com a receptividade. Começa quando o homem quer pelo menos ouvir a mensagem da verdade. Continua com o assentimento intelectual. Primeiro o homem ouve e logo concorda que é verdadeiro. Mas o assentimento intelectual não se expressa necessariamente em ação. Muitos homens sabem perfeitamente que algo é verdadeiro, mas não mudam suas ações para conformá-las a seu entendimento. A etapa final é quando este assentimento intelectual se torna em uma entrega total. Em uma fé totalmente amadurecida o homem ouve a mensagem cristã, concorda em que é verdadeira e logo se entrega a uma vida de total submissão àquela mensagem.

 

(3) Encontramos o conceito de justificação.

Em todo o Novo Testamento não há termos mais difíceis de compreender que os termos justificação, justificar, justiça e justo. Teremos muitas ocasiões de encontrá-los nesta epístola. Aqui podemos apenas traçar as linhas principais sobre as quais se move o pensamento de Paulo.

O termo grego que Paulo utiliza para justificar é dikaioun, cuja primeira pessoa singular do presente indicativo — justifico — é dikaioo. Devemos deixar bem claro que o termo justificar, usado neste sentido, tem um significado completamente diferente do corrente em nosso idioma. Se justificamos a nós mesmos, significa que damos razões para provar que nossa conduta foi correta. Se outra pessoa nos justificar, significa que dá razões para provar que nossos atos foram corretos. Mas todos os verbos que em grego terminam em oo não significam provar que uma pessoa ou coisa é algo, nem fazer com que uma pessoa ou coisa seja algo; sempre significam estimar, considerar, tratar uma pessoa como algo. Agora, se Deus justifica o pecador não quer dizer que encontrou razões para provar que o pecador estava correto. Justamente o contrário. Nem mesmo significa, até aqui, que ele faz do pecador um homem bom. O que significa é que Deus trata o pecador como se não fosse pecador. Em vez de tratar o pecador como um criminoso que deve ser destruído, Deus o trata como um menino que precisa ser amado. Isto é o que significa justificação. Significa que Deus nos conta como amigos e não como inimigos, que Deus não nos trata como os maus merecem ser tratados, mas Ele nos trata como os bons merecem. Significa que Ele não nos olhe como transgressores da lei que devem ser castigados, mas sim como homens e mulheres que só devem ser amados. Esta é a verdadeira essência do evangelho.

Isto significa que ser justificado é entrar em uma nova relação com Deus, uma relação de amor, confiança e amizade, em lugar de uma relação de distância, inimizade e temor. Já não acudimos a um Deus que irradia castigo terrível, embora justo. Vamos a um Deus que irradia amor perdoador e redentor. Justificação (dikaiosune) é a relação correta entre Deus e o homem. O justo (dikaios) é o homem que está nesta correta relação; e aqui está o ponto-chave: não está nesta correta relação por algo que tenha feito, mas sim pelo que Deus tem feito. Não está nesta correta relação porque tenha completo meticulosamente as obras da lei. Está nesta relação porque com fé total se entregou ao maravilhoso amor e misericórdia de Deus.

Lemos, em uma sentença bem compacta: O justo viverá pela fé. Agora podemos ver o que esta sentença significa na mente de Paulo: O homem que está em correta relação com Deus, não por obra de suas mãos, mas sim por sua fé absoluta no que o amor de Deus tem feito, é quem realmente compreende o que é a vida no tempo e na eternidade. E para Paulo, a obra total de Jesus foi tornar os homens capazes de olhar nesta nova e preciosa relação com Deus. O temor foi embora e chegou o amor. O Deus a quem os homens tinham considerado um inimigo, converteu-se em amigo.

 

A IRA DE DEUS

Romanos 1:18-23

Nas passagens anteriores Paulo considerou a relação com Deus, a qual o homem tem acesso por essa fé que é entrega e confiança totais em contraste com a fé que coloca a ira de Deus que o homem pode atrair por sua deliberada cegueira para com Deus e render culto a seus próprios pensamentos e seus próprios ídolos em vez de adorar a Deus.

Chegamos aqui a um ponto difícil e que deve nos fazer pensar seriamente, pois nos encontramos com o conceito da ira de Deus. Certamente, esta expressão é alarmante e aterradora.

 

O que significa? O que pensava Paulo ao usá-la?

No Antigo Testamento achamos a ira de Deus. Nas partes mais anteriores do Antigo Testamento a ira de Deus está especialmente relacionada com a idéia do povo da aliança. O povo de Israel estava em uma relação especial com Deus. Deus o escolheu e o devotou a uma especial relação com Ele, uma relação que obteriam na medida em que guardassem a Lei de Deus, condição de tal relação (Êxodo 24:3-8). Isto significa duas coisas:

(a) Significa que na nação qualquer quebrantamento da Lei provocava a ira de Deus. O quebrantamento da Lei destruía a relação, a aliança entre Deus e Israel. Em Números 16 é relatada a rebelião de Coré, Datã e Abirão, e no fim Moisés pede a Arão que realize uma expiação especial pelos pecados do povo “pois de Jeová já saiu a ira”

(Números 16:46, TB). Quando os israelitas se entregaram ao culto de Baal, “a ira do SENHOR se acendeu contra Israel” (Números 25:3). Por estar Israel em tal relação especial com Deus, qualquer quebrantamento da Lei de Deus provoca sua ira.

(b) Mas, além disso, por estar Israel em tão especial e única relação com Deus, qualquer outra nação que o oprima e o submeta à crueldade e injustiça atrai a ira de Deus. Os babilônios maltrataram a Israel, e “Por causa da indignação do SENHOR, não será habitada” (Jeremias 50:13). Porque Israel tem esta especial relação com Deus, seu pecado e o pecado de outros contra ele criam a ira de Deus.

A idéia da ira de Deus aparece também nos profetas, mas com uma ênfase distinta. O pensamento religioso judeu dos profetas em adiante estava dominado pela idéia das duas idades. A idade totalmente má e a idade de ouro totalmente boa. A idade presente e a idade por vir – ambas separadas pelo Dia do Senhor. Este seria um dia de terrível retribuição e juízo, quando se teria que destruir o mundo, aniquilar o pecador, reconstruir o universo antes que viesse o Reino de Deus. Seria então quando a ira do Senhor entraria em terrível atividade. “Eis que vem o Dia do SENHOR, dia cruel, com ira e ardente furor, para converter a terra em assolação” (Isaías 13:9). “Por causa da ira do SENHOR dos Exércitos, a terra está abrasada” (Isaías 9:19). Ezequiel (7:19) fala de “dia da indignação do SENHOR”. Deus derramaria sobre as nações sua “indignação e todo o ardor da minha ira” (Sofonias 3:8).

Mas os profetas não pensavam que a ira de Deus seria posposta até esse terrível dia de juízo. Para eles a ira de Deus estava em atividade contínua. Quando Israel se separava de Deus, quando era rebelde e infiel, então a ira de Deus se desatava contra ele e o sumia em ruína, desastre, cativeiro e derrota.

Para os profetas a ira de Deus era algo que estava continuamente em operação, e que alcançaria sua culminação de terror e destruição no vindouro Dia do Senhor.

Um estudioso contemporâneo expressou-o da seguinte maneira: "Porque Deus é Deus, porque Deus é por natureza santo, não pode tolerar o pecado, e a ira de Deus é sua "reação aniquiladora contra o pecado."

Isto para nós é difícil de entender e aceitar. De fato, é o tipo de religião que associamos ao Antigo Testamento em vez de ao Novo Testamento. Até Lutero o encontrou difícil. Ele falou do amor de Deus como sua operação própria, e da ira de Deus como sua operação alheia. Era algo desconcertante para a mente cristã.

Tentaremos ver de que maneira Paulo entendeu esta concepção. O Dr. C. H. Dodd escreve sábia e profundamente sobre o assunto. Paulo fala freqüentemente desta idéia da ira. Mas o que chama a atenção é que embora fale da ira de Deus, nunca fala de que Deus estivesse irado. Paulo fala do amor de Deus e do Deus amante. Fala da graça de Deus e do Deus graciosamente dadivoso, fala da fidelidade de Deus e do Deus fiel a seu povo. Mas, surpreendentemente, embora fale da ira de Deus, nunca se refere a Deus como um ser encolerizado. De modo que, portanto, aqui há algo diferente. Há algo distinto na relação entre o amor e a ira com Deus.

Ainda mais, Paulo menciona a ira de Deus somente em três ocasiões. Aqui, em Efésios 5:6 e em Colossenses 3:6. Nestas duas passagens se refere à ira de Deus que cai sobre os filhos da desobediência. Mas, mais freqüentemente Paulo fala da ira, sem referência a que seja a ira de Deus, e o faz de certa maneira impessoal, como se fosse preciso escrever com maiúsculas — A Ira — como uma tipo de força impessoal que opera no mundo. Em Romanos 3:5 pergunta: “Não cometeria Deus uma injustiça desencadeando sobre nós sua ira?" (Bíblia de Jerusalém). Em Romanos 5:9 se refere a ser salvo da Ira. Em Romanos 12:19 adverte os homens a não tomarem vingança por si mesmos, mas darem lugar à Ira. Em Romanos 13:5 se refere à Ira (o castigo) como um poderoso motivo para manter os homens obedientes. Em Romanos 4:5 diz que a Lei produz ira. E em 1 Tessalonicenses 1:10. afirma que Jesus nos libertou da Ira por vir. Agora, aqui se descobre algo estranho. Paulo fala da ira, e entretanto Jesus salva os homens dessa mesma Ira.

 

Voltemos aos profetas.

Os profetas falaram da ira de Deus, e, muito freqüentemente, sua mensagem era que a ira de Deus viria sobre os homens a menos que eles fossem obedientes.

 

Como apareceria e operaria esta ira?

Seria vista como cativeiro e derrota, e desastre nacional. Em outras palavras, a mensagem profética era: "Se não forem obedientes a Deus, sua ira os sumirá com a ruína e o desastre". Ezequiel expressa isto mesmo de outra maneira vívida: "A alma que pecar, essa morrerá" (Ezequiel 18:4). Se puséssemos isto em linguagem moderna, deveríamos usar um tipo diferente de terminologia. Diríamos: "Há uma ordem moral neste mundo, e o homem que transgrida a lei moral, mais cedo ou mais tarde, é sujeito a sofrimento."

Isto é exatamente o que o grande historiador J. A. Froude disse:

"Uma lição, e somente uma, pode-se dizer que a história repete distintivamente: que, de alguma maneira, o mundo está construído sobre fundamentos morais, que, a longo prazo, é bom para o bom e será mau para o mau."

A mensagem total dos profetas hebreus era que neste mundo há uma ordem moral. A conclusão é clara: essa ordem moral é a ira de Deus em ação. Deus fez este mundo de tal maneira que quebrantamos suas leis por nossa conta e risco. Agora, se fôssemos deixados somente à mercê desta ordem moral inexorável e implacável, não poderíamos esperar mais que morte e destruição. Certamente, o mundo é feito de tal maneira que a alma pecadora deve morrer — se somente agir a ordem moral. Mas neste dilema do homem irrompe o amor de Deus, e este amor de Deus, por um ato incrível de graça imerecida, arrebata o homem das conseqüências do pecado e o salva da ira da qual se fez merecedor.

A ira de Deus é o castigo inevitável do pecado. Está inscrita na estrutura do universo. E é, precisamente, das conseqüências de nossa rebelião contra essa ordem moral que nos salva o amor de Deus, pelo que Jesus fez por nós.

 

A Depravação da Humanidade

Como entender a declaração dos versículos dezoito e dezenove? 

Em primeiro lugar é necessário ter em mente que as declarações de Paulo foram direcionadas aos cristãos. 

Somente os cristãos conhecem a verdade sobre a ira de Deus: há um dia específico para a ira de Deus e a manifestação do juízo de Deus ( Rm 2:5 ); somente os cristãos compreendem que a ira de Deus (como já vimos, a expressão é um termo forense) se manifesta contra a impiedade e injustiça.

Paulo reitera aos cristãos que a ira de Deus se manifesta contra a impiedade e injustiça, porém os descrentes não sabem desta realidade descrita no versículo dezoito. Os cristãos conhecem e entendem que a ira de Deus é a retribuição pelas injustiças e impiedades praticadas pelos homens; também compreendem que o juízo de Deus se deu em Adão, porém, no dia da ira também será dado a conhecer o juízo de Deus que se deu em Adão, e que os homens desconhecem ( Rm 2:5 ).

Aprendemos em Habacuque que o maior problema do homem está na falta de fé em Deus, e não nas impiedades e injustiça praticadas pelos homens; esta verdade é repetida por Paulo ao demonstrar que o maior problema do homem persiste quando ele detém a verdade pela injustiça.

“...Do céu se manifesta a ira de de Deus sobre toda impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade pela injustiça, visto que o que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta, porque Deus lhes manifestou..." (v. 16 e 17).

·         (Vers. 18) “...Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça...”

·         O que aprendemos com a citação de Habacuque também se aplica deste versículo até o versículo trinta e dois: a depravação da humanidade é uma evidência da falta de fé em Deus, e não o pior problema da humanidade. 

·         A depravação que Paulo descreve em linhas gerais não é o pior mal da humanidade, antes indica algo de maior gravidade e que aprisiona a humanidade: o pecado da incredulidade
·         
        (Vers. 19) “...Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou...”

·         Somente aqueles que creem na mensagem do evangelho descobrem a justiça de Deus, pois é isto que o evangelho manifesta a todos quantos creem. 

·         Já aos incrédulos é dado conhecer a ira de Deus, pois mesmo eles não sabendo, a ira de Deus se manifesta neles. 

·         Deus manifestou a sua ira sobre os homens que detém a verdade de Deus em injustiça.

Visto que os homens vivem em impiedade e em injustiças, a eles compete a ira de Deus. Neles se manifesta a ira de Deus porque é a única coisa de Deus que eles 'podem' conhecer.

Os justo não conhecerão a ira, antes terão gozo e paz no espírito Santo, pois não é pertinente a eles conhecer a ira.

Aqueles que não creem terão contato única e exclusivamente com a ira de Deus, pois é isto que eles tem entesourado para si. A ira de Deus se há manifestado entre eles, visto que Deus deixou todos eles entregues as concupiscências de seus corações impenitentes (v. 24).

 

A Natureza

Paulo expõe aos cristãos de Roma que os atributos de Deus, bem como o seu eterno poder e sua divindade são facilmente perceptíveis por tudo quanto está criado por Deus.

Ao analisarmos esta declaração de Paulo, devemos ter em mente que ele estava escrevendo a cristãos e que é próprio a eles ver os atributos de Deus na criação.

Paulo destaca que Deus 'manifesta' a sua ira sobre a impiedade e a injustiça, é que a ira é algo que somente os injustos podem conhecer.

Porém, os ímpios à época de Paulo tinham ciência, ou melhor, sabiam que a ira de Deus se 'manifestava' neles?

Os descrentes desconheciam esta verdade! Por que?

Porque o texto é uma explanação do apóstolo que demonstra aos cristãos uma realidade pertinente aos injustos. Os injustos são sujeitos da ira de Deus (neles se manifesta a ira), porém, este não é um conhecimento pertinente aos incrédulos.

Eles não sabem, ou melhor, não têm ciência de que são sujeitos da ira.

    Quando Paulo fala que as evidências presentes na criação depõe contra os homens que detêm a verdade em injustiça, ele fala de um conhecimento (ciência) que não é de total domínio dos incrédulos. 

·         Os incrédulos não conseguem perceber que a natureza depõe contra eles quando revela a existência de Deus. 

 

O papel da natureza é duplo:

·         a) revela a existência de Deus e desperta a curiosidade de conhecê-lo melhor, e; 

·         b) depõe contra aqueles que souberam da existência de Deus e não se importaram de ter conhecimento de Deus (v. 28).

Os homens que detêm a verdade em injustiça já estão debaixo de condenação herdada de Adão, e se mantém inescusáveis quanto as suas ações, visto que souberam da existência de Deus por meio das coisas que foram criadas, mas não deram a devida importância a tal conhecimento e não buscando a Deus.

Antes, as suas ações se diversificaram segundo os seus corações e pensamentos, e somente entesouram ira para si ( Rm 2:5 ).

A ira de Deus a se manifestar é quanto as ações dos homens, visto que o juízo já foi estabelecido quanto à queda de Adão. A queda trouxe o juízo de Deus, mas as ações dos homens trará a ira e a indignação de Deus.

Entender que é possível alguém ser salvo através da 'revelação' da natureza é temerário, pois:

·         1ª) Os judeus tinham conhecimento impar de Deus através do que revelava o Antigo Testamento, e mesmo assim, muitos se desviaram após outros deuses;

·         2ª) Esta ideia não coaduna com o exposto por Paulo:

"E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição" ( Rm 9:22 );

Muitos questionam a justiça de Deus, visto que nem todos os homens ouviram a mensagem do evangelho. Porém, estes esquecem que os vasos da ira foram preparados para a perdição. "Que diremos? Há injustiça da parte de Deus?" (Rm 9:14)

·         3ª) Alegar que Deus julgará o homem com relação as suas obras através do conhecimento recebido não é bíblico, visto que só o fato de ir a julgamento já demonstra a culpabilidade do homem (Rm 2:12).

A ação dos homens, mesmo tendo conhecimento ('ciência') da existência de Deus, foi o de criarem deuses para si.

·         Vers. 21) “...Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. 22 Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos...”. 

·         (Vers. 23) “...E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis...”

Os homens poderiam inquirir a respeito de Deus quando em contato com as coisas criadas, porém, permaneceram inescusáveis, pois souberam da existência de Deus por meio de suas obras e não lhe renderam graças e nem a glória.

A natureza apresenta uma verdade, porém, ela não consegue aproximar o homem de Deus. Somente a verdade do evangelho pode reconciliar o homem com Deus. A sabedoria do homem, as suas questões filosóficas os faz inculcar que são sábios, porém, a sabedoria dos homens é loucura perante Deus. As investigações dos homens se demonstram ineficazes, e só distancia o homem de Deus. Eles tornaram-se loucos por concluírem que não precisam de Deus, visto que criam deuses para si.

·         (Vers. 24) “...Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si;..” 

·         (Vers. 25) “...Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém...”

A ira de Deus começa a revelar-se nos homens que detém a verdade em injustiça pelo fato de estarem entregues as concupiscências de seus corações.

26 Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. 27 E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.

O apóstolo Paulo descreve o comportamento dos homens que rejeitaram a Deus e seguem as concupiscências de seus corações. As dissoluções, rebeldias e infâmias é resultado da entrega as concupiscências do coração e abandono às paixões infames.

·         (Vers. 28) “...E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm;...” 

·          (Vers. 29) “...Estando cheios de toda a iniquidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade;...” 

·         (Vers. 30) “...Sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães;..” 

·    (Vers. 31) “...Néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia;...”

O maior problema da humanidade reside em não se importar em ter conhecimento de Deus. Enquanto o homem não considera em seu coração que Deus existe e que é galardoador daqueles que o buscam, ficam entregues a um sentimento perverso. A disposição mental daqueles que desprezam o conhecimento de Deus é totalmente reprovável.

·        (Vers. 32) “...Os quais, conhecendo a justiça de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem...”

Mesmo não se importando em ter conhecimento de Deus os homens não podem negar o testemunho da consciência. Mesmo sabendo que são passíveis de morte quem pratica as ações descritas acima, quem não se importa em ter conhecimento de Deus não somente as fazem, como também consentem com quem as pratica.

Os homens cheios de malignidade conhecem a justiça de Deus através de uma lei interna e da consciência (Rm 2:15). Eles sabem que as suas ações são reprováveis diante de Deus, porém permanecem na prática desenfreada da maldade.

Este trecho da carta aos Romanos (v. 18- 32) tem o objetivo de demonstrar que jamais Paulo apregoou que é necessário fazer o mal, para que o bem venha (Rm 3:8). 

Este trecho depõe contra a malignidade da humanidade, demonstrando que quem pratica tais coisa são reprováveis perante Deus.

O capítulo seguinte apresenta homens que se escudam em acusar o semelhante, mas a condição deles é a mesma que os mais infames dos homens; eles também são reprováveis diante de Deus.

Tertuliano, o grande pai cristão primitivo, tinha muito arraigada esta convicção de que Deus pode ser contemplado em seu mundo. "Não foi a pena de Moisés a que iniciou o conhecimento do Criador. . . A grande maioria da humanidade, embora nunca tenham ouvido o nome de Moisés muito menos de seus livros não conhecem por essa razão menos o Deus de Moisés." "A natureza", disse, "é a professora; a alma é o aluno." "Uma flor do mato ainda não uma flor dos prados; uma concha de qualquer mar ainda não uma pérola do Mar Vermelho; uma pena de ave por não dizer de pavão, acaso falarão de um pobre Criador?" "Se lhe oferecer uma rosa, não desprezará a seu Criador."

No mundo podemos ver a Deus. O argumento de Paulo, completamente válido, é que se observarmos o mundo, o sofrimento segue ao pecado. Quebranta as leis da agricultura a colheita falha. Quebranta as leis da arquitetura o edifício se desmorona. Quebranta as leis da saúde seu corpo sofre. Paulo quer dizer: "Olhem o mundo. Note como está construído! De como é o mundo podem inferir como é Deus." O pecador ficou sem desculpa.

Mas Paulo vai um passo mais adiante. O que fez o pecador? Em lugar de olhar a Deus ele se olhou a si mesmo. Complicou-se em vãs especulações e pensou que era sábio, sem ver que não era mais que um insensato. Por que? Foi um insensato porque fez de suas idéias, suas opiniões, suas especulações a medida e a lei da vida em lugar da vontade de Deus. A insensatez do pecador consistiu em fazer do "homem senhor das coisas". Achou suas normas em suas próprias opiniões e não na lei de Deus, porque olhou dentro de si em vez de olhar para Deus. Viveu em um universo centrado em si mesmo, em lugar de centrado em Deus. Em vez de caminhar olhando para Deus, caminhou olhando-se a si mesmo, e, como qualquer homem que não olha por onde vai, caiu.

Qual foi o resultado? O resultado disto foi a idolatria. A glória de Deus foi mudada em imagens de formas humanas e animais. Qual é a raiz pecaminosa da idolatria? A raiz pecaminosa da idolatria é o egoísmo. O homem faz um ídolo. Traz-lhe ofertas e lhe apresenta suas orações. Por que? A fim de que sejam promovidos seus próprios esquemas e sonhos e propósitos. Todo o seu culto é por causa de si mesmo e não por causa de Deus.

Na totalidade desta passagem somos confrontados face a face com o fato de que a verdadeira essência e base do pecado é colocar-se a si mesmo no lugar de Deus. O pecado é que o homem se adore a si mesmo em vez de adorar a Deus.

 

OS HOMENS COM OS QUAIS DEUS NADA PODE FAZER 

Romanos 1:24-25

A palavra traduzida concupiscência (epithumia) é a chave desta passagem. Aristóteles define epithumia como um esforço para alcançar o prazer. Os estóicos a definiram como o esforço para alcançar o prazer que desafia toda razão. Clemente de Alexandria a chamou uma tendência e esforço irrazoável para alcançar aquilo com o que alguém se gratifica a si mesmo. Epithumia é o desejo apaixonado dos prazeres proibidos. É o desejo que leva os homens a fazerem coisas infames e vergonhosas. É o tipo de loucura que leva os homens a fazerem aquelas coisas que nunca teriam feito se este desejo não lhes tivesse tirado seu sentido da honra, prudência e decência. É o sinal do homem que pôs o seu coração nas coisas e prazeres que pode dar este mundo e que esqueceu completamente o Criador do mundo. Este é o modo de vida do homem que de tal maneira mergulhou no mundo que perdeu totalmente o conhecimento de Deus.

É terrível referir-se a Deus como aquele que abandona a alguém. E há duas razões para isto.

(1) Deus deu ao homem o livre-arbítrio, e respeita esta escolha. Em última análise nem mesmo Deus pode misturar-se nessa liberdade de escolha. Em Efésios 4:19 Paulo fala dos homens que se abandonaram à lascívia, renderam a ela toda sua vontade. Oséias (4:17) tem a terrível sentencia: “Efraim está entregue aos ídolos; deixa-o.” Colocou-se uma livre opção diante do homem. Tem que ser assim. Sem opção não pode haver bondade, e sem opção não pode haver amor. Uma bondade forçada não é verdadeira bondade; um amor forçado não é de maneira nenhuma amor. Se os homens deliberadamente derem as costas a Deus, depois que Deus enviou a seu Filho Jesus Cristo ao mundo, nem mesmo Ele pode fazer nada a respeito disso. Quando Paulo se refere a Deus como aquele que abandona os homens na imundície, a expressão abandona está desprovida de toda irritação furiosa. De fato, nem sequer sua nota principal é de condenação e juízo. Sua nota principal é de ansiosa e dolorosa tristeza, como a de um ser amoroso que fez todo o possível e não pode já fazer mais. Descreve exatamente o sentimento do pai que vê a seu filho dar as costas ao lar e ir embora a um país longínquo. Há muito mais tristeza que ira no coração do homem que experimenta semelhante coisa.

(2) E no termo abandona há mais que isto — há juízo. É um dos atos inflexíveis da vida que o pecado engendra pecado. Quanto mais pecador é o homem mais fácil é para ele pecar. Pode começar pecando com certo estremecimento de consciência pelo que está fazendo, e acabar pecando sem nem pensá-lo. Não é que Deus esteja castigando o homem, mas sim ele se torna o castigo sobre si mesmo. Ele se empenhou em ser tal que é escravo do pecado. Os judeus sabiam, e tinham grandes ditados a respeito disso. "Todo cumprimento do dever é recompensado com outro; e toda transgressão é castigada com outra." "Quem quer se esforce por conservar-se puro recebe o poder para fazê-lo; e quem quer que seja impuro as portas do vício se abrem para ele." "Quem levanta um amparo em torno de si está protegido, e quem se rende está entregue." O mais terrível sobre o pecado é justamente este poder para engendrar pecado. A entristecedora responsabilidade do livre-arbítrio é que pode ser utilizado de tal maneira que resulta finalmente destruído e o homem acaba sendo um escravo do pecado, entregue ao caminho errôneo. E o pecado é sempre uma mentira, porque o pecador pensa que seu pecado poderá fazê-lo feliz, sendo que no fim arruína a vida, tanto para ele como para outros, neste mundo e no mundo vindouro.

 

UMA ÉPOCA INDECORASA

Romanos 1:26-27

Quando lemos Romanos 1:26-32 pareceria que esta passagem é obra de algum moralista quase histérico que exagerou a situação contemporânea pintando-a com cores de exagero retórico. Descreve uma situação de degeneração moral quase sem paralelos na história humana. Mas Paulo não diz nada que os escritores gregos e romanos da época não tenham dito.

(1) Aquela foi uma época em que as coisas pareciam estar, e estavam, fora de controle. Virgilio escreveu:

"O correto e o errado se confundem; há muitas guerras no mundo, muitas formas de engano; nenhuma honra apreciável foi deixado ao arado; os agricultores partiram e os campos produziram lodaçal; a foice endireitou sua curva na folha da espada. No este, o Eufrates se prepara para a guerra, no oeste, Germânia. Ainda mais, as cidades mais estreitamente próximas desfizeram sua mútua associação e descobriram as costas, e a guerra, fúria antinatural dos deuses, brama sobre tudo o mundo; assim como quando os carros no circo irrompem de suas comportas, eles se lançam à carreira, e o condutor, puxando desesperadamente as rédeas, permite-se guiar pelos cavalos, e o carro faz caso omisso do cordão."

 

Era um mundo em que a violência corria desenfreada. Quando Tácito chegou a escrever a história deste período, expressou:

"Estou entrando na história de um período rico em desastres, nublado com guerras, esmigalhado por rebeliões, selvagem em suas próprias horas de paz. .. Tudo era um delírio de ódio e de terror; os escravos eram subornados para trair a seus amos, os empregados a seus patrões. Aquele que não tinha inimigos era destruído por seus amigos."

Suetônio, escrevendo sobre o reinado de Tibério, disse: "Não passa um dia sem que alguém seja executado." Foi uma época de terror completo e total. "Roma", disse o historiador Lívio, "nem podia agüentar seus maus, nem tinha os remédios que os pudessem curar." O poeta Propercio escreveu: "Eu vejo Roma, a orgulhosa Roma, perecer vítima de sua própria prosperidade." Foi uma idade de suicídio moral.

Juvenal, o satírico, escreveu: "A terra já não produz nada mais que homens maus e covardes. Por isso Deus, quem quer que seja, olha para baixo, ri-se deles e os despreza." Para o pensador era uma época em que as coisas pareciam estar fora de controle, e quando, como fundo, o homem podia escutar a risada zombadora dos deuses.

Como disse Sêneca, foi uma época "comovida pela agitação de uma alma que já não se governa a si mesma".

(2) Foi uma época de luxo sem paralelo. Nos banheiros públicos de Roma a água fria e quente emanava de torneiras de prata. Calígula até fez orvalhar a areia do circo com pó de ouro em lugar de serragem.

Juvenal disse amargamente: "Um luxo mais desumano que a guerra cobre Roma. . . De nenhuma culpa ou ato de cobiça se carece desde que desapareceu a pobreza romana." "O dinheiro, tutor do vício... e os debilitados ricos escavaram a fortaleza da época com sua detestável luxúria."

Sêneca se referiu ao "dinheiro, a ruína da verdadeira honra das coisas", e disse: "Não perguntamos quanto vale verdadeiramente uma coisa, mas sim quanto ela custa." Era uma época tão enfastiada das coisas comuns que estava ávida de novas sensações. Lucrécio falou de

"aquela amargura que emana da própria fonte do prazer". O crime chegou a ser o único antídoto contra o aborrecimento, até, como disse Tácito, "a maior das infâmias, o mais selvagem dos deleites".

(3) Foi uma época de imoralidade sem paralelo. Não tinha havido um só caso de divórcio nos primeiros 520 anos de história da república romana. O primeiro registro de um romano divorciado de sua esposa foi o de Espúrio Carvillo Ruja em 234 A. C. Mas nesta época, como disse Sêneca, "as mulheres se casam para divorciar-se e se divorciam para casar-se" As damas de linhagem romana datavam os anos pelos nomes de seus maridos e não pelo dos cônsules. Juvenal não podia crer que fosse possível ter a estranha boa sorte de encontrar uma dama de imaculada castidade.

Clemente de Alexandria fala da típica dama romana de sociedade, "rodeada como Vênus com um dourado cinto de vício". Juvenal escreveu: "É suficiente um marido para a Iberina? Antes a persuadiriam de que se contente com um só olho." Cita o caso de uma mulher que teve oito maridos em cinco anos. Cita o incrível caso da Agripina, a própria imperatriz, esposa de Cláudio, que qual estava acostumada a abandonar o palácio real pelas noites para servir em um bordel por causa de uma luxúria totalmente insaciável. "Mostram espírito intrépido naquelas coisas às quais vilmente de atrevem."

Não há nada que Paulo haja dito sobre o mundo pagão que os próprios moralistas pagãos já não tivessem dito. E a imoralidade não se detinha nos vícios crus e naturais. A sociedade, do alto abaixo, estava assoberbada de vícios contra a natureza. Dos primeiros quinze imperadores romanos quatorze foram homossexuais.

Paulo, longe de exagerar o quadro ele o traça com moderação — e era ali onde Paulo estava ansioso para pregar o evangelho, e era ali onde Paulo não se envergonhava do evangelho de Cristo. O mundo necessitava do poder que operasse salvação, e Paulo sabia que em nenhum outro a não ser em Cristo existia esse poder.

 

A VIDA QUE NÃO LEVA DEUS EM CONTA

Romanos 1:28-32

Dificilmente haja uma passagem que tão claramente assinale o que o acontece ao homem quando deixou que levar Deus em conta. Não é tanto que Deus envie um juízo sobre o homem, mas sim o homem se torna sobre si mesmo o juízo quando não dá lugar a Deus em seu esquema de coisas. Quando um homem afasta a Deus de sua vida se converte em um determinado tipo de homem, e aqui nesta passagem temos uma das mais terríveis descrições literárias desse tipo de homem. Observemos o catálogo de coisas espantosas que entram na vida sem Deus.

Tais homens fazem aquelas coisas que são indignas de qualquer homem fazer. Os estóicos tinham uma expressão. Falavam da kathekonia, com o qual davam a entender as coisas que são dignas de que um homem faça. Há certas coisas que são parte essencial, natural, instintiva, inerente da humanidade, e certas coisas que não o são. Assim diz Shakespeare em Macbeth:

"Eu ouso fazer tudo o que pode chegar a fazer um homem; quem se atreve a fazer mais é ninguém."

O homem que desterra a Deus não só perde a divindade; perde também a humanidade.

Logo vem a longa lista de coisas terríveis. Tomemos uma por uma.

Injustiça (adikia). Adikia é exatamente o oposto a dikaiosune, que significa justiça; e os gregos definiam a justiça como dar a Deus e aos homens o que a eles é devido. O homem injusto é aquele que rouba tanto aos homens como a Deus os seus direitos. Ele levantou um altar a si mesmo no centro das coisas e assim se adora a si mesmo com exclusão de Deus e do homem.

Perversidade (poneria). Em grego este termo significa mais que maldade. Há um tipo de maldade que, principalmente, afeta só a pessoa implicada. Não é essencialmente uma maldade que se exterioriza.

Quando afeta a outros, como toda maldade, não o faz deliberadamente. Pode ser inconscientemente cruel, mas não insensivelmente cruel. Mas os gregos definiam poneria como o desejo de fazer o mal. É a ativa e deliberada vontade de perverter e infligir injúria. Quando os gregos descreviam a uma mulher como poneria queriam indicar que seduzia deliberadamente ao inocente para apartá-lo de sua inocência. Em grego, um dos títulos mais comuns para Satanás é o de hoponeros, o maligno, aquele que deliberadamente assalta, ataca e aspira destruir a inocência e a bondade dos homens. Poneros descreve o homem que não só é mau, mas também quer fazer a outros tão maus quanto ele; o homem que quer arrastar a outros até seu próprio baixo nível. É uma maldade destruidora.

Avareza (pleonexia). O termo grego está construído sobre duas palavras que significam ter mais. Os próprios gregos definiram pleonexia como o maldito amor às posses. Este é um vício agressivo. Foi descrito como o espírito que persegue seu próprios interesses com total menoscabo dos direitos dos outros, e até de toda consideração pelo simplesmente humano. Seu termo chave é rapacidade. O escritor cristão Teodoreto, descreve-o como o espírito que tende a ter mais, o espírito que se apodera de coisas que não tem direito a ter. Pode operar em todas as esferas da vida. Se operar na esfera material, significa apoderar-se de dinheiro e bens, prescindindo da honra e da honestidade. Se operar na esfera ética, significa a ambição que atropela a outros para ganhar algo que não lhe está propriamente destinado. Se operar na esfera moral, significa a cobiça desenfreada que busca o prazer onde não tem direito a fazê-lo. Pleonexia é o desejo que não conhece leis.

Maldade (kakia). Kakia é o termo grego mais geral para maldade. Descreve o caso do homem desprovido de toda qualidade que possa fazê-lo bom. Por exemplo, um kakos krites é um juiz desprovido do conhecimento legal, o sentido moral e a retidão de caráter que lhe são necessários para fazer um juízo justo. É descrito por Teodoreto como "a inclinação da alma para com o pior". O termo que utiliza para inclinação é rope, que significa a inclinação da balança. O homem kakos é o homem cuja vida se inclina para com o pior. Kakia foi descrito como o vício essencial que inclui todos os vícios. Foi descrito como o precursor de todo outro pecado. É a degradação da qual crescem e florescem todos os pecados.

Inveja (fthónos). Há uma inveja boa e uma má. Há uma inveja que revela ao homem sua própria fraqueza e insuficiência, e que o faz ansioso de emular e ficar à altura de algum grande exemplo. Há a inveja que é essencialmente uma coisa detestável. Olhe à pessoa admirável, e nem tanto movida pela aspiração a aquela admirabilidade, como pelo ressentimento que lhe cria a admirabilidade da outra pessoa. É a mais tortuosa e retorcida das emoções humanas.

Homicídio (fonos). Deve-se recordar sempre que Jesus ampliou incomensuravelmente a visão deste mundo. Jesus insistiu em que não somente os atos de violência, mas também o espírito de ira e ódio deviam ser eliminados. Insistiu que não era suficiente preservar a vida de ações iradas e selvagens. A única coisa suficiente é que até o desejo e a ira sejam desterrados do coração. Podemos não ter golpeado a ninguém em nossa vida, mas quem pode afirmar que alguma vez não quis golpear a ninguém? Faz tempo que Tomás do Aquino disse: "O homem vê a ação, mas Deus conhece a intenção."

Luta (eris). O significado é a contenção nascida da inveja, a ambição, o desejo de prestígio, posto, posição e preeminência. O haver ciúmes provém do coração. Se o homem estiver livre de ciúmes avançou muito em ver-se livre de tudo aquilo que incita à luta e à disputa. O ser capaz de alegrar-se tanto pelo êxito dos outros como pelo próprio é um dom de Deus.

Engano (dolos). Podemos chegar melhor ao significado disto por meio do verbo correspondente (doloun). Doloun tem dois usos característicos. É usado para referir-se à falsificação de metais preciosos e à adulteração de vinhos. Dolos é engano; descreve a qualidade do homem que tem uma mente tortuosa e retorcida, o homem que não pode agir de uma maneira reta, o homem que se inclina a usar métodos tortuosos e clandestinos para fazer sua própria vontade, o homem que nunca faz nada se não ser com algum motivo ulterior. Descreve a astúcia ladina do conspirador intrigante que se encontra em toda comunidade e em toda sociedade.

O espírito que dá a todas o pior sentido às coisas (kakoetheia). Kakoetheia significa literalmente inclinação natural ao mal. Em seu sentido amplo significa malignidade. Aristóteles a definiu em um sentido mais estreito que ainda conserva. Disse que era "o espírito que sempre supõe o pior a respeito de outras pessoas". Plínio a chamou "malignidade de interpretação". Jeremy Taylor disse que é "uma degradação da natureza pela qual tomamos as coisas pelo lado mau, e expomos as coisas sempre no pior sentido". Bem pode ser que este seja o mais corrente de todos os pecados. Se houver dois sentidos possíveis que se possam imputar à ação de alguém, a natureza humana escolherá o pior. É aterrador pensar quantas reputações foram assassinadas com falatórios de comadres, quando a pessoa atribui maliciosamente uma má interpretação a uma ação totalmente inocente. Quando estivermos tentados a fazê-lo assim devemos recordar que Deus ouve e lembra cada palavra que falamos.

 Murmuradores e caluniadores (psithyristes e katalalos). Estes dois termos descrevem as pessoas de línguas infamantes. Mas há uma diferença entre eles. Katalalos, caluniador, descreve o homem que proclama publicamente suas infâmias. Com toda publicidade faz suas acusações e relata seus contos; mas psithyristes descreve o homem que murmura suas histórias maliciosas ao ouvido, é aquele que leva um homem a um canto à parte e murmura suas histórias destruidoras. Ambos são maus, mas o murmurador é o pior. A pessoa, pelo menos pode defender-se de um caluniador público, mas é impotente contra o murmurador secreto que se deleita em destruir reputações.

        Aborrecedores de Deus (theostygeis). Esta expressão descreve o homem que odeia a Deus, porque sabe que o está desafiando. Sabe que se houver um Deus, tanto pior para ele. Deus é para ele a barreira entre ele e seus prazeres. Deus é a cadeia que o impede de fazer exatamente o que quer. De boa vontade eliminaria a Deus se pudesse; para ele um mundo sem Deus seria um mundo no qual poderia haver licença, embora não liberdade.

Injuriosos (hybristes). Hybris era para os gregos o vício que principalmente conduzia a destruição à mão dos deuses. Há aqui duas linhas principais de pensamento.

(1) Descreve o espírito do homem que é tão orgulhoso que desafia a Deus. É o orgulho insolente que precede à queda. É esquecer que o homem é uma criatura. É o espírito do homem que desafia o destino e a fortuna. É o espírito do homem tão crédulo em sua saúde, seu poder, sua própria força, que pensa que pode viver a vida sozinho.

(2) Descreve o homem que é desenfreada e sadicamente cruel e insultante. Aristóteles o descreve como o espírito que danifica, fere e prejudica a alguém, não por motivo de desforra, nem porque pode ganhar disso alguma utilidade ou vantagem, mas simplesmente pelo mero prazer de fazer mal. Há gente que sente prazer em ver como alguém reage diante de uma palavra cruel. Há pessoas que obtêm um deleite maligno infligindo tristezas mentais e físicas a outros. Isto é hybris. É o sadismo que encontra prazer em machucar a outros pelo simples motivo de danificá-los.

Soberbos (hyperefanos). Este é o termo três vezes usado na Escritura quando se diz que Deus resiste aos soberbos (Santiago 4:6; 1 Pedro 5:5; Provérbios 3:24). Teofilactio o chamou "a cúpula de todos os pecados". Teofrasto foi um escritor grego que escreveu uma série de famosas peças sobre o caráter, e definiu a hyperefania como "certo desprezo de todos, exceto a si mesmo". Teofrasto escolheu elementos da vida diária que eram signos de tal arrogância. O homem arrogante, quando lhe é feita uma acusação, rejeita-o aduzindo que não tem tempo para regular de seus próprios negócios. Nunca olha as pessoas na rua, a menos que lhe agrade fazê-lo. Convida a um homem a comer e logo ele mesmo não aparece, mas sim envia a seu servo para atender o convidado. Toda sua vida está rodeada por uma atmosfera de desprezo e se deleita fazendo com que outros se sintam pequenos.

Altivos (alazon). Alazon é, em grego, um termo com uma história interessante. Significa literalmente aquele que anda errante. Logo chegou a ser a palavra mãe para os enganadores errantes que se gabam de curas que realizaram, e para os marreteiros que alardeiam que suas mercadorias têm uma excelência que em realidade estão longe de possuir. Os gregos definiram alazoneia como o espírito que pretende ter o que não tem. Xenófanes disse que este nome corresponde àqueles que pretendem ser mais ricos e bravos do que são, e que prometem fazer aquilo que realmente são incapazes de fazer, e fazem isto para obter algum benefício ou ganho. Novamente, Teofrasto tem um estudo sobre o caráter de tal homem — o presunçoso, o estirado. É o tipo de homem que se gaba de grandes negócios que só existem em sua imaginação, de contatos com gente influente que não existe absolutamente, de donativos a obras de caridade e serviços públicos que nunca deu ou prestou. Afirma que a casa na qual vive é muito pequena para ele, e que deverá comprar uma maior. O jactancioso tenta impressionar a outros — e o mundo ainda está cheio de tais pessoas.

Inventores de males (efeuretes kakon). Esta frase descreve o homem que, por assim dizer, não está de acordo com as maneiras comuns e usuais de pecar, mas sim procura novos e recônditos vícios, porque chegou a cansar-se e fartar-se, e busca novas emoções em algum pecado novo.

Desobedientes aos pais. Tanto os judeus como os romanos colocavam muito alto na escala de virtudes a obediência aos pais. Que os pais deviam ser honrados era um dos Dez Mandamentos. Nos primeiros dias da república romana o pátrio poder, a autoridade do pai, era tão absoluta que tinha poder de vida e morte sobre sua família. A verdadeira razão para incluir este pecado nesta passagem é que, uma vez destruídos os laços familiares, seguem-se necessariamente inumeráveis depravações.

Néscios (asynetos). Este termo descreve ao homem tolo, aquele que é incapaz de aprender a lição da experiência, aquele que é culpado de incrível sandice, o homem que não quer usar a mente e o cérebro que Deus lhe deu.

Desleais (asynthetos). Esta palavra devia chegar com uma força particular a um auditório romano. Nos grandes dias de Roma, a honra romana era algo admirável. A palavra de um homem era tão boa quanto seu documento. De fato esta era uma das grandes diferenças entre os romanos e os gregos. O grego era um trapaceiro nato. Os gregos costumavam dizer que se fosse confiado a um governador ou magistrado um talento — 1.000 dólares — mesmo que houvesse dez empregados e contadores para controlá-lo, com toda certeza ele conseguiria malversá-lo; ao passo que o romano, fosse um magistrado em função ou um general em campanha, podia ter que dirigir milhares de talentos sob sua única palavra, e nunca faltaria um só centavo. Ao usar este termo, Paulo não estava lembrando aos romanos a ética cristã somente, mas também suas próprias normas de honra de seus dias mais gloriosos.

Sem afeto natural (astorgos). Storge era um termo especial dos gregos para referir-se ao amor familiar. Era algo completamente evidente que aquela era uma época na qual o amor familiar estava morrendo. Nunca a vida da criança foi tão precária como naquele tempo. As crianças eram consideradas como uma coisa desafortunada. Quando nascia uma criança, esta era posto aos pés do pai. Se o pai a elevava significava que a reconhecia. Se ele se voltava e a deixava, a criança era literalmente arrojada fora. Não havia noite em que não fossem abandonados no fórum romano trinta ou quarenta crianças. Todas as noites se desprezava literalmente uma quantidade de crianças. Até Sêneca, mente preclara como era, pôde escrever: "Matamos o cão raivoso; aniquilamos o boi furioso; afundamos a faca no gado emprestado para que não infecte o rebanho; afogamos as crianças nascidas fracos e disformes." Os laços naturais do afeto humano tinham sido destruídos.

Implacáveis (aneleemon). Não houve outra época em que a vida humana valesse tão pouco. O escravo podia ser morto ou torturado por seu amo, pois era só uma coisa, e a lei dava ao amo um poder ilimitado sobre ele. Conta-se que em uma rica mansão um dos escravos, levando uma bandeja com copos de cristal, tropeçou e um dos copos caiu e se rompeu. No mesmo momento, seu amo o fez arrojar vivo no lago de peixes no meio do pátio, onde as piranhas selvagens o despedaçaram membro por membro e devoraram sua carne viva. Era uma época desumana até nos prazeres, já que foi a grande época dos jogos de gladiadores, quando o povo achava seu deleite em ver os homens matarem-se entre si. Era uma época em que a qualidade da misericórdia tinha desaparecido.

Finalmente, Paulo diz uma última coisa a respeito daqueles que desterraram a Deus da vida. Acontece normalmente que, embora seja pecador, o homem sabe, e, embora ele mesmo se permita algo, sabe que isso mesmo é imperdoável em outros. Mas naqueles dias os homens tinham alcançado um nível tal que eles próprios pecavam e aprovavam quando outros faziam o mesmo e os animavam a fazê-lo.

George Bernard Shaw disse certa vez: "Nenhuma nação sobreviveu nunca à perda de seus deuses", e aqui Paulo nos deu um quadro terrível do que acontece quando os homens deliberadamente deixaram que levar Deus em conta, e, no seu devido tempo, Roma também pereceu. O desastre e a degeneração foram de mãos dadas e acabaram em destruição.

 

Por: William Barclay
Editado Por: Joel Silva

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